domingo, 19 de fevereiro de 2017

DOMINGO QUE VEM JÁ É O OSCAR

Domingo que vem já é o Oscar 2017! E aí, já viu os filmes? Fez suas apostas pro meu bolão? Votou na enquete do lado superior direito do blog? (Aproveite, porque fazia mais de dois anos que eu não colocava enquete. Da última vez que tentei, não consegui).
Ontem terminei de ver o último dos nove indicados a melhor filme, A Chegada. Gostei e tal, mas será que fui a única a achar a primeira meia hora terrivelmente chata? Não sei se é porque ficção científica não é exatamente meu gênero preferido (das incoerências lolísticas: nunca fui capaz de passar do início de Alien, O Oitavo Passageiro, mas amo 2001, Uma Odisseia no Espaço), mas o ritmo é muito arrastado.
Adorei Estrelas Além do Tempo, que você vê e faz a pergunta: "Mas como é que a gente nunca ouviu falar nessa história (real) antes?" (aí você se lembra quem conta as histórias). O filme é convencional, mas mostra com uma equipe de mulheres negras matemáticas foram fundamentais para a corrida espacial, principalmente no início dos anos 1960. E mostra, acima de tudo, como o racismo é um atraso de vida para toda a sociedade, para toda a civilização. O pessoal lá, na maior potência do planeta, com toda a tecnologia de ponta que o dinheiro pode comprar, ao mesmo tempo sem derrubar um apartheid (aquela mentira do "separados, mas iguais) que durou mais de cem anos (e que, na real, ainda não foi derrubado). 
Gostei menos de Moonlight: Sob a Luz do Luar. Sei que é um filme importante e, sob vários sentidos, inédito, porque fala da interligação entre masculinidade, negritude e homossexualidade (e também sobre bullying e tráfico de drogas). Só que não me tocou. Ainda assim, todo mundo deve ver esse filme. Se La La Land não ganhar, é bem possível que Moonlight leve o Oscar.
Chorei litros vendo Lion: Uma Jornada para Casa, um belo filme, que também traz um tópico importantíssimo: crianças desaparecidas na Índia. Parece que 180 crianças somem na Índia todos os dias -- o filme fala de 80 mil por ano, e lançou uma campanha, a #LionHeart. Em vários momentos eu me peguei pensando em Pixote, a Lei do Mais Fraco
Fiquei decepcionada com Manchester à Beira Mar. O filme é super elogiado, e não compreendi o hype. Uma leitora querida me perguntou no Twitter se não achei o filme misógino, já que (segundo ela) todas as personagens femininas são terríveis. Eu não achei isso de jeito nenhum. O personagem mais terrível, pra mim, é o protagonista mesmo, que não consegui perdoar.
Agora, fiquei muito surpresa com o quanto gostei de Até o Último Homem, uma tradução adequada pra um título nada a ver, Hacksaw Ridge. É um filme profundamente religioso sobre um homem que se recusa a pegar em armas e vai pro Japão lutar na Segunda Guerra Mundial (que fará a festa dos cristãos que adoram Mel Gibson por A Paixão de Cristo), mas me emocionou.  
Agora vou tentar ver os filmes que concorrem a filme estrangeiro (infelizmente Aquarius não está entre eles). 
Lola e Silvio congelando em frente ao
Kremlin há 13 anos
Mas assim, ter visto praticamente todas produções indicadas não me dá segurança alguma pra chutar quem vai ganhar em cada categoria. Eu sempre me lembro que meu recorde de acertos (17 em 20) foi em 2004, o ano em que não vi nada (porque estava em Moscou jogando um torneio de xadrez) e apostei todas as fichas em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que levou tudo. Até hoje não sei se ver os filmes ajuda ou atrapalha pra fazer as apostas no bolão.
Bom, gente, por favor, participe do bolão, ou dos bolões (tem um pago, custa R$ 20, e um grátis). É só até sexta, antes da meia noite. E é fácil. Pra participar do bolão grátis, você gasta cinco minutinhos e nada mais -- basta clicar aqui. Pro bolão pago, é aqui (leia as instruções no último parágrafo deste post). 
Todo mundo que já entrou nos bolões nesses anos todos garante: é muito mais legal acompanhar a cerimônia se você participa do bolão. Sério mesmo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ALT-RIGHT EXPULSA FEMINISTA DO TWITTER

Pedi ao meu querido Flávio, que é tradutor profissional e escritor, traduzir este artigo publicado na Vox, da autoria de Aja Romano.
Ele trata de como as redes sociais ainda dão mais atenção (e proteção) a trolls e a gente que espalha ódio do que às ativistas que são vítimas desse ódio. Coisa que eu vi de perto mês passado, quando o Google quase tirou do ar o meu blog após denúncias geradas por script de misóginos que me ameaçam de morte há seis anos.

O alt-right [alternative right, ou direita alternativa, que de alternativa não tem muito -- é o velho conservadorismo de sempre, ainda mais radical] expulsou a escritora feminista Lindy West do Twitter. Isso tem implicações políticas no mundo real.
West diz que não está disposta a apoiar um site que não vai impedir o movimento racista de usá-lo como uma ferramenta de propaganda.
Lindy West com uma
camiseta que eu tb
quero: "Senhor, dê-me
a autoconfiança de um
homem branco medíocre"
A proeminente feminista e escritora Lindy West desativou sua conta no Twitter na primeira semana de janeiro, e foi contundente sobre o porquê: em ensaio publicado no jornal The Guardian, ela alegou que a plataforma de mídia social se recusou a reprimir o assédio realizado pelo movimento supremacista branco e misógino alt-right, contribuindo assim para uma crise política global.
West tem sido alvo de trolls sexistas no Twitter há anos, e confrontou-os antes. Mas enfatizou em seu ensaio no Guardian que ela não deixou o Twitter porque todos os ataques machistas que ela suportou finalmente a esgotaram.
"Eu odeio desapontar alguém, mas o ponto de ruptura para mim não foram os trolls (se eu aprendi alguma coisa com o lado escuro do Twitter, é a não sentir nada quando um sapo me chama de puta)," escreveu ela, referindo-se ao uso que a alt-right faz do sapo Pepe como mascote racista não-oficial (para o desgosto do seu criador).
Mais precisamente, seu ponto de ruptura — o que a fez sentir que já não poderia participar da "cultura profundamente distorcida" da plataforma — é que o Twitter foi incapaz de reconhecer e lidar com o uso da rede social feito pela alt-right para espalhar sua ideologia racista, levando a repercussões graves e reais:
"Saí do Twitter", diz West. "É
impossível de usar para qualquer
um que não seja troll, robô ou
ditador"
"O movimento de supremacia branca, anti-feminista, isolacionista, transfóbico que é o 'alt-right' tem testado sua máquina de propaganda e intimidação sobre comunidades marginalizadas no Twitter há anos — quanto discurso de ódio será ignorado pelos espectadores? Quando o Twitter vai intervir e começar a proteger seus usuários? — e esse movimento descobriu, para seu enviesado deleite, que o limite não existia. Ninguém se importava. O abuso no Twitter foi um projeto de normalização em grande escala, que disseminou calúnia e desinformação, enlameando conquistas culturais de longa data como, por exemplo, as noções de que 'racismo é ruim' e 'agressão sexual é ruim' e 'mentir é ruim' e 'autoritarismo é ruim' e, finalmente, lubrificou as engrenagens para a ascendência de Donald Trump à presidência dos EUA. Os executivos do Twitter não fizeram nada."
A declaração de West evidencia o fato desconfortável de que o Twitter teve anos para fazer alterações e reformular suas políticas de assédio e normas de conduta, mas em vez disso optou por uma abordagem hesitante, evasiva e frequentemente contraditória. E por não conseguir parar a ascensão do alt-right em seu meio, afirma West, o site tem ajudado a permitir a propagação da ideologia racista e anti-semita em todo os EUA.
O alt-right é mais que supremacia
branca requentada. É isso mas
muito, muito mais bizarro
O comportamento recente do Twitter tem sido visto por muitos como a aceitação do movimento alt-right e sua ideologia racista.
O Twitter não é o único site a contribuir para o avanço do alt-right. Sites como o Reddit, 4chan, e numerosos enclaves extremistas fizeram sua parte. Mas o Twitter, devido à sua infra-estrutura voltada para o público, sua cultura de ser amigável a celebridades e a facilidade com que seus usuários interagem com a mídia e uns com os outros, é o site mais "popular" que os membros do alt-right frequentam. É também o mais notoriamente propenso ao assédio.
Esse assédio parece ser esmagadoramente racista e machista e, frequentemente, origina-se de usuários do Twitter que fazem parte do alt-right. Um exemplo especialmente proeminente foi o abuso que a atriz do Saturday Night Live e de Ghostbusters, Leslie Jones, sofreu em 2016.
Assim, a avaliação que West faz do Twitter como sendo uma arena perigosa para a radicalização do alt-right se aplica a outros sites. Mas a visibilidade do Twitter fez dele um condutor para ideias da alt-right entrarem no mainstream. E mesmo que nem todos os trolls racistas e anti-semitas do Twitter façam parte do alt-right ou apoiem as crenças da supremacia branca em particular, West argumenta que a trollagem racista e anti-semita e o assédio no Twitter impulsionaram a ascensão do alt-right, quer fossem ou não os trolls explicitamente parte do movimento.
A abordagem em curso do Twitter para lidar tanto com o assédio quanto com o alt-right tem sido caracterizada por conflito e confusão. Em 2016, por exemplo, enquanto seu bem-documentado problema de assédio continuou a agravar-se, o site foi lerdo para agir e às vezes esquivou-se ou contradisse suas próprias regras e políticas.
Em julho, o Twitter finalmente baniu o articulista do Breitbart e garoto-propaganda do alt-right, Milo Yiannopoulos, depois de várias suspensões temporárias... mas só depois que ele liderou a onda de assédio contra Jones, mencionada acima.
Após a eleição em novembro, o Twitter lançou novas ferramentas anti-assédio e protocolos internos para ajudar os usuários a denunciar abusos, além de banir usuários do alt-right, como o líder supremacista branco Richard Spencer, que incentiva o neo-nazismo... só para restabelecer a conta de Spencer e conceder um luminoso selo de "verificado" na conta anteriormente não-verificada do Breitbart no Twitter algumas semanas mais tarde.
E enquanto isso, regras e políticas do Twitter foram frequentemente desrespeitadas pelo candidato presidencial e agora presidente eleito, Donald Trump, cujo comportamento no site muitas vezes se encaixa num padrão de assédio que o Twitter havia proibido antes.
Jack Dorsey está perdendo
controle do Twitter
Muitas pessoas interpretaram esses movimentos como uma mensagem clara do Twitter de que estava pronto para normalizar a supremacia branca. Após Trump usar a plataforma como arma, usando-a para atiçar seus partidários contra qualquer um que fosse contra ele [aqui no Brasil um candidato de direita vem fazendo exatamente o mesmo], o restabelecimento da conta de Spencer provocou uma preocupação generalizada de que o Twitter ia dar ao alt-right um microfone ainda maior do que ganhou com a eleição. Mas os extremistas de direita ficaram encantados. "Jack finalmente beijou o anel," declarou exultante um apoiador do Breitbart.
Uma passeata contra o discurso de
ódio da alt-right
Para West, tudo isso veio à tona no final de dezembro, quando o CEO do Twitter, Jack Dorsey, perguntou a usuários que mudanças eles queriam ver no Twitter em 2017, e em seguida, contornou com primor uma resposta esmagadoramente popular: "Um plano abrangente para livrar-se dos nazistas." Lindy West escreveu:
"'Temos trabalhado em nossas políticas e controles,' respondeu Dorsey. 'Qual é a próxima coisa mais problemática?' Ah, qual é a nossa segunda maior prioridade depois dos nazistas? Eu diria que a n º 2 é também os nazistas. E a nº 3. Na verdade, pode apenas prosseguir e enfiar 'nazistas' nos Top 100. Me procure quando seu site não for um enervante ninho de ratos nazistas. Nazistas são ruins, sabe?"
Em suma, a recusa do Twitter em bloquear o discurso de ódio e o extremismo da direita levou West a pensar no site como equivalente a uma empresa local com afiliações danosas — algo que ela já não estava disposta a apoiar. "Se o meu ginecologista regularmente realiza comícios neonazistas na sala de exames, eu vou procurar outra pessoa para examinar meu colo do útero," escreveu.
Supremacista branco diz que ban no
Twitter não vai parar a divulgação
dos seus pontos de vista
O Twitter não vai banir grupos de ódio individuais com base somente na ideologia.
Não é como se o Twitter não estivesse tentando lidar com o problema. Num e-mail para o Vox no início de janeiro, um porta-voz do Twitter mostrou que o site recentemente baniu a conta verificada do supremacista branco Matthew Heimbach por violar as regras contra o discurso violento, assédio e outras formas de abuso. O Twitter também suspendeu outros supremacistas brancos conhecidos, como o extremista neonazista Alex Linder, pelas mesmas razões.
Ainda assim, West e outros (justificadamente) mantêm que o Twitter não está tentando o suficiente. 
"Obrigado por não se misturar" (falando
de raças e miscigenação), diz slogan
do Partido Nazista Americano
Muitos outros supremacistas brancos mais proeminentes permanecem ativos no site — incluindo o ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke. Além de ser um famoso racista, Duke tuíta implacavelmente declarações anti-semitas sobre o povo judeu e Israel, juntamente com a propaganda da supremacia branca, incluindo uma ligeiramente velada retórica nazista, condenando o "marxismo cultural."
E há a conta oficial do Partido Nazista Americano no Twitter.
Essas contas têm uma presença no Twitter que viola clara e profundamente o espírito da política de conduta de ódio do site, que "proíbe comportamentos específicos que transformam pessoas em alvo com base em raça, etnia, origem nacional, orientação sexual, gênero, identidade de gênero, afiliação religiosa, idade, deficiência ou doença." E ainda assim são autorizados a permanecer.
Parece que a lógica do Twitter para deixar essas contas intactas está enraizada em duas palavras: "conduta específica". As contas dos alt-right e outras contas racistas como as de Spencer e Duke regularmente vomitam ódio sobre grupos inteiros de pessoas menos favorecidas e marginalizadas. Mas enquanto eles não se envolverem em atos específicos de ódio, ou alvejem pessoas individualmente no Twitter, parece que será permitido que eles fiquem.
Por um lado, esta é uma salvaguarda que protege o Twitter de ter que arbitrar muitas disputas sem sentido sobre o que constitui o "discurso do ódio"; Afinal, muitas pessoas sentem que a oposição à cultura branca masculina é discurso de ódio, uma forma de racismo. Eles estão errados, mas o Twitter provavelmente não pode dedicar recursos para examinar a diferença de cara.
Pergunta: comentários virulentos
sem moderação de trolls online
ajudaram a formar um eleitorado
cheio de ódio?
Por outro lado, o Twitter está deixando as suas portas abertas para um monte de pessoas moralmente repreensíveis. E parece-me claro que deveria haver uma maneira de indicar uma conta no Twitter como um bastião do veneno cheio de ódio, mesmo que esteja tecnicamente obedecendo às normas do Twitter. Um marcador desses talvez servisse para equilibrar a crítica pós-eleitoral de que o Twitter normalizou o neonazismo, de maneira proveitosa, ao identificar a sua presença.
É claro que com o presidente Trump usando ativamente o site como ele faz, essa possibilidade parece cada vez mais improvável. 
"Trump usa sua conta no Twitter para jogar multidões de ódio contra cidadãos particulares, tentar calar jornalistas que escrevem desfavoravelmente sobre ele, mentir para o povo americano e arrasar complexas relações diplomáticas com outras potências mundiais," escreveu West. "Eu saí do Twitter porque parece inconcebível ser parte disso — gerar receita pra isso, participar na sua cultura profundamente distorcida e emprestar meu nome a sua legitimidade."
Em última análise, a recusa do Twitter em banir a retórica racista pode ser sua ruína.
Ironicamente, o lançamento em novembro, pelo Twitter, de ferramentas anti-assédio e banimento simultâneo de muitas contas do alt-right inspirou muitos usuários alt-right do Twitter a trocar o local pelo ambiente da supremacia branca, da "liberdade de expressão" -- a rede social Gab.
O logotipo do Gab possui uma semelhança facilmente identificável com Pepe o Sapo, uma imagem associada explicitamente à supremacia branca. E os usuários verificados do Gab incluem conhecidos supremacistas brancos. 
Mas um porta-voz do Gab declarou enfaticamente ao Vox.com que a plataforma "não é um site alt-right ou anti-semita" e que "não representa qualquer ideologia política ou movimento em particular." O mesmo porta-voz também insistiu que o logotipo do Gab não é Pepe o sapo, mas "extraído de fontes antediluvianas e bíblicas" e afirmou que o Gab "rejeita a noção que nós representamos a 'supremacia branca' em qualquer forma ou meio" [Nota da Lola: Pense nos piores trolls do Twitter brasileiro, nos reaças zueros -- todos abriram contas no Gab. Mas infelizmente não ficaram por lá e continuam ativos no Twitter, porque o Gab, ao menos no Brasil, não parece ter vingado. Afinal, qual a graça em atacar ativistas, mulheres, negros etc se os alvos não estão no Gab e, assim, não vão ler o que os trolls dizem sobre eles?]
Seja como for, os supremacistas brancos estão descaradamente migrando para o Gab — Heimbach até promoveu o site no Washington Post depois ter sido banido do Twitter em 3 de janeiro. Na essência, embora o Twitter tenha tentado seguir a letra em vez do espírito da sua política de assédio, mesmo seus esforços superficiais o tornaram impopular com os próprios usuários que estão expulsando vozes progressistas como West da plataforma.
Este êxodo em massa dos trolls odiosos pode soar como uma vitória para aqueles que ainda estão usando o Twitter — mas muitas pessoas já desistiram de esperar que o site mude, e textos progressistas como o "Por que deixei o Twitter" de West estão se tornando cada vez mais frequentes.
2017: o ano em que o Twitter
aprende a prosperar ou morre
A fuga de usuários em 2017 seria um mau sinal para o já conturbado site que sofreu um êxodo interno no ano passado em meio a lutas em curso para definir sua estratégia de negócios. É possível que o Twitter, ao perder usuários de ambos os lados da guerra cultural, vai ser deixado com pouco para mostrar devido a seu aparente interesse em cortejar o que alguns têm chamado de "Presidência de Twitter" de Trump — pouco, exceto pela distinção duvidosa e não rentável de contribuir com aterrorizantes tendências políticas.
Lindy West tira foto com algumas
de suas muitas fãs
O ensaio de West foi alimentado pela compreensão sinistra de que a recusa do Twitter em lidar com o assédio e o discurso de ódio em nível ideológico teve repercussões sérias, universais. Deixar o Twitter, ela sugere, é uma maneira de lidar com a nova fase horrível da política mundial que os trolls do Twitter ajudaram a introduzir.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

LUTANDO POR NÓS

Mural da artista Panmela Castro (Anarkia Boladona) na Barnard College

Hoje de manhã fui à Delegacia da Mulher fazer um novo boletim de ocorrência.
Foi o décimo. As ameaças são diárias, mas não tem como registrar um BO a cada ameaça dos mascus sanctos. Então só registro umas poucas
Tem tanta coisa que eu gostaria de poder contar pra vocês, mas não posso, porque corro o risco de comprometer as investigações.
O que posso contar é que eu estava lá, com meu advogado, relatando o caso para uma escrivã, quando se aproximou uma outra escrivã, que me atendeu em setembro. E ela me reconheceu, se lembrou de mim. Disse: "Lola! Tudo bem com você?" Me abraçou. E disse pra outra escrivã: "Ela luta por nós, mulheres". 
Só por isso já valeu a pena ter ido à delegacia hoje. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

MASCUS AGORA ATERRORIZAM ADVOGADAS

Preciso contar as últimas novidades dos mascus, porque, infelizmente, é um tema que tem ocupado bastante a minha vida. Fiz um pequeno resumo do caso:
- Sou atacada por mascus desde 2011, no mínimo, por ser feminista e por combater misóginos. Dois mascus foram presos em março de 2012 (e me culpam por isso) e condenados a 6,5 anos de prisão. Saíram da cadeia em maio de 2013. Um deles voltou a fazer exatamente o que fazia antes: ameaçar pessoas e instituições e criar sites de ódio. No início de 2014 criou um chan (um fórum anônimo), o Dogolachan, criptografado e hospedado na Malásia, onde planeja abertamente suas ações. Tem aterrorizado a internet desde então. 
- 2016, no entanto, não foi um ano bom para esse perturbado neonazista de 31 anos que mora em Curitiba. Todos os seus planos mirabolantes falharam. Não conseguiu viralizar um site de ódio sequer. Ele até tentou relançar o site de ódio (sobre aborto de fetos masculinos) no meu nome, sem sucesso. Fracassou em "gerar lulz" e em arruinar a vida de pessoas. Não chamou a atenção da mídia. Até que, no final do ano, surgiu um novo personagem.
- Um tal de Goec caiu de paraquedas no Dogolachan, em novembro. Quem o levou pra lá? Ele (que provavelmente antes já havia causado bastante estrago na internet, mas em outras frentes) apareceu pra me atacar. 
- Na tarde de 11 de novembro, recebi várias ligações de mascus, entre elas de Technomage, atual moderador do chan, e Coelho, que mora em Chicago. Isso foi orquestrado. Technomage na mesma hora escreveu no chan que iria me processar, porque eu disse no telefone pra ela procurar uma psiquiatra, não eu, antes de desligar o telefone na sua cara.
Contribuição de Guerra nas Estrelas:
hoje em dia toda pessoa gorda é
chamada de Jabba (the hutt)
- Eu escrevi no meu Twitter, irritada, que estava recebendo ligações de mascus carentes. Várias pessoas se solidarizaram. Eles fizeram doxxing com boa parte delas (doxxing é descobrir todos os dados pessoais de uma pessoa e sua família e expor esses dados, para poder efetuar ataques). A primeira vítima foi uma professora, quem eles mais atormentaram. Outro que recebeu muita atenção foi um professor, por ser da área da computação (ameaçaram principalmente a filha dele, menor de idade, de estupro). Com o aval do líder da quadrilha, Goec criou a "Jabbeira do Dia", uma seção no chan com o aviso de que qualquer um que se comunicasse comigo seria exposto e atacado. "A questão não é SE, é QUANDO", escreveu Goec num email (as ameaças vinham com cópia para mim). Tudo isso era discutido no Dogolachan. Escreviam os emails em conjunto. Uma verdadeira quadrilha.
- Eles continuaram com o doxxing por vários dias, com muito fôlego. Expuseram e ameaçaram cerca de dez pessoas que se comunicaram comigo pelo Twitter. Todos os emails com ameaças vinham com cópia pra mim e eram assinados por Goec. Coelho continuou me ligando todos os dias, várias vezes por dia, a qualquer hora do dia e da noite. O líder da quadrilha disse no chan que mandou Coelho ligar, não sei se pra me irritar, ou se é pra eu xingá-lo e aí ele me processar (?). Enquanto eu estava viajando, durante 15 dias em janeiro, ele ligava pra irritar a minha mãe. 
- Depois de alguns dias, ainda em novembro, Joice Hasselmann passou a ser ameaçada. Desta vez, as ameaças também apareceram com o email do Sigaint (que acabou de cair, viva!), mas vinham assinadas por Emerson (o outro mascu preso em 2012, que me processa e atualmente está nos EUA). No Dogolachan, diziam que a intenção era incriminar o Emerson, para que ele fosse deposto dos EUA. Enquanto isso, Emerson não parava de fazer vídeos xingando e caluniando Joice (e também Carla Zambelli, outra reaça).
- Enviaram mesmo um gato morto pra casa da Joice, em Curitiba, em dezembro. Não é boato. Um motoboy entregou. Goec disse no chan que pagou um motoboy pra entregar.
- Em dezembro, perto do Natal, Goec (agora assinando como Emerson) enviou um email para o reitor da minha universidade dizendo que, se não me demitissem, haveria um atentado lá que mataria 300 pessoas. O reitor da UFC pediu providências à PF. Um email parecido, com o mesmo endereço mas outros alvos, foi enviado para duas outras universidades. 
- No dia 27/12, fui chamada para depor na Polícia Federal de Fortaleza. Entreguei meu HD e passei a minha senha para que pudessem tentar rastrear os emails. 
- No dia seguinte, dois agentes da Abin vieram conversar comigo em casa. Um deles mostrou bastante empatia. Eu continuei enviando prints e ameaças pra PF e pro agente da Abin.
- Outro delegado da PF de Fortaleza provavelmente tentou entrar no Dogolachan através de seu computador em casa (o chan proíbe entrada da polícia). Pegaram o IP dele e fizeram doxxing. Descobriram que é delegado e, dias depois, que é meu aluno (ainda não descobriram que ele não tem nada a ver com a investigação do caso). Goec diz que ligou de madrugada pra ele e para um escrivão, que o mandou tomar no c*.
- Goec mandou um email surreal pra PF dizendo estar arrependido de ter feito doxxing com algumas pessoas (não comigo), afirmando que queria colaborar com a PF para pegar criminosos cibernéticos e que queria restituir o que foi gasto investigando o caso... em bitcoins.
- Enquanto isso, um playboy mascu enviou montes de emails que basicamente diziam que o Dogolachan é um "chan do bem", que eu sou uma pessoa do mal, que a polícia brasileira é incompetente, e que Goec é um cozinheiro que mora na França. 
- No início de janeiro, o Dogolachan lançou uma ação para denunciar meu blog pro Google, via script. Praticamente conseguiram derrubar o blog. Depois de bastante mobilização de ativistas, o Google devolveu meu blog, na mesma semana.
- No dia 19 de janeiro, o líder da quadrilha entrou com ação contra mim por danos morais no Tribunal de Pequenas Causas. A intimação para a primeira audiência em Curitiba, dia 7/2, chegou a minha casa enquanto eu estava viajando. Minha mãe, que mora comigo, recebeu, sem abrir. Nunca na minha vida ouvi falar de uma audiência ser marcada com tanta rapidez, o que indica que o líder da quadrilha pode mesmo ter costas quentes, como dizem.
- No início de fevereiro, Goec fez doxxing e ameaçou Janaina Paschoal (a advogada do impeachment) e sua família. A advogada obviamente ficou furiosa e entrou com tudo no caso. Ainda bem que ela também não tem medo.
- Minhas advogadas justificaram minha ausência na audiência do dia 7/2, alegando que eu estava viajando, que tinha que dar aulas, e que era perigoso ficar perto do líder da quadrilha. Afinal, é meio estranho eu ter que me deslocar para uma cidade onde um cara me ameaça de morte há seis anos e ficar frente a frente com ele. No chan, ele escreveu: 
"É amanhã que é minha audiência com a Dolores. Terei que me segurar para não voar no pescoço dela. Aquela mulher me fez apodrecer 1 ano na cadeia. A vontade que tenho é de furar a merda do pescoço dela". Outros integrantes perguntaram por que ele não me matava logo, e recomendaram que deveriam me seguir da audiência até o hotel, para lá me "estuprar e cortar em pedacinhos". Eu, lotada de trabalho, não fui a Curitiba. 
Líder da quadrilha pede que Goec "dê um acelero" na advogada
- Na mesma noite da audiência, o líder da quadrilha ordenou, no seu chan, que Goec fizesse doxxing para atrelar crimes a uma das advogadas e a ameaçasse, o que foi prontamente cumprido. Ela e a outra, muito abaladas, renunciaram no mesmo dia.
- Durante o fim de semana, no Dogolachan, fizeram doxxing com a outra advogada, sem saber que ela também já havia renunciado. Enviaram emails com ameaças de morte e estupro e com todos os dados da advogada e de sua família para o escritório onde trabalha, além de abrirem uma pasta anônima na internet onde postam esses dados. Já estão planejando o doxxing do próximo advogado (sim, felizmente já tenho novo advogado).
Recado da Jessica Lange: "Deixe-me
dar um aviso: eu sempre ganho contra
o macho patriarcal"
Então este é o plano atual dos mascus: todos eles entrarem com processos por danos morais contra mim no Juizado Especial (onde minha presença seria obrigatória; a intenção não é ganhar a ação, é só infernizar a minha vida e me fazer gastar tempo e dinheiro indo a cada estado onde um mascu que me atacou diz ter tido sua honra atingida por mim) e, ao mesmo tempo, atacar de todos os meios os meus advogados, para que eles desistam da causa e eu fique sem defesa. 
Eu firo a honra dos pobres fracassados que me atacam
Eu já tinha decidido há tempo não mencionar mais nomes de mascus por aqui. Não leva a nada. 
Todo mundo sabe quem é o líder da quadrilha (na PF eles o conhecem pelo primeiro nome), só não conseguiram provar ainda. Eu ainda acho que a casa deles vai cair. Porém, sem dúvida, estou decepcionada com a demora (até porque o líder vem dizendo que daqui a um mês migrará para Austrália, onde poderá continuar agindo com cada vez mais impunidade). Essa quadrilha misógina ameaça jornalistas, advogados, professores, delegados faz anos e nada acontece. 
Também não posso falar das minhas estratégias de defesa (e de ataque). Mas uma coisa é certa: vou entrar com uma ação contra o Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Vou levar o meu caso (que não é só meu, mas de todas as mulheres, principalmente feministas) pra corte internacional, como fez Maria da Penha ao ver que o estado brasileiro não a protegia. Claro, isso leva anos, mas é absurdo que grupos organizados possam atacar pessoas com tanta impunidade. Chegamos num ponto em que uma das vítimas foi fazer boletim de ocorrência e a escrivã não quis assinar, com medo que ela também fosse perseguida. Pediu que um escrivão assinasse, já que as ameaças aos homens costumam ser mais brandas.
Peço novamente às leitoras e leitores queridos que podem colaborar que doem algum valor para contribuir com viagens minhas e de advogados. Dá pra doar pelo PayPal aí do lado, ou numa das minhas duas contas correntes (Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760). Peço também que divulguem o post, porque as pessoas precisam saber como ativistas são tratadxs no nosso país. 
Eu só apresentei um resumo bem compacto do que tem acontecido de novembro pra cá. E só focando em mim. Já dá pra escrever um livro com tantos casos. Eu sempre uso a mesma palavra para descrever a situação: surreal. Alguns me dizem que parece um episódio de Black Mirror. Mas é tudo verdade.