terça-feira, 23 de agosto de 2016

GUEST POST: EXISTE RISCO CONCRETO DE INSTITUTOS E CAMPI DE UNIVERSIDADES FEDERAIS FECHAREM

Pedi a Nelson Alves Pinto, leitor querido e antigo do blog e professor EBTT no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), que escrevesse um texto sobre um cenário preocupante e muito, muito próximo. 

Para entender toda a gravidade do cenário de 2017 para Institutos Federais será necessário contar uma pequena história. 
Os Institutos Federais são parte de uma ideia centenária. Surgiram em 1909, como política da época para formar mão de obra técnica. Em sua maioria, os alunos dessas escolas de Artífices vinham das camadas mais pobres da população. 
Em 1978, o governo Geisel juntou as diversas escolas técnicas e montou os Centros Federais – CEFETs. Esses Centros foram distribuídos para cada estado da Federação. Nos governos posteriores os CEFETs viveram dias difíceis. Foi somente no governo Itamar que houve algum investimento expressivo neles, sendo que três deles passaram a se destacar pela excelência: CEFET-PR, CEFET-RJ e CEFET-MG. 
Em 2004 o governo Lula transformou o CEFET-PR em UTFPR, a primeira e única Universidade Tecnológica do país. Os outros dois CEFETs aguardaram seguir pelo mesmo caminho. Contudo, os planos do ministro da Educação Aloizio Mercadante impediram essa mudança. Foi um erro muito grave. Por exemplo, durante anos essas duas instituições não conseguiam contratar professores por conta de planos de carreira dos CEFETs e das Universidades serem diferentes. A fim de resolver a demanda dos CEFETs que queriam caminhar para o ensino superior é que surgiu a proposta dos Institutos Federais.  
Os Institutos Federais surgiram em 2008, no governo Lula. Não foi apenas uma mudança de nome. Existia um plano estratégico que seria seguido à risca durante toda a década posterior. Os novos Institutos Federais tinham por missão interiorizar a Educação e ter uma área de atuação muito mais abrangente.  
Por lei, os Institutos Federais devem fornecer pelo menos 20% de cursos de licenciaturas e formação de professores. Também por lei devem prover ensino médio integrado ao ensino técnico ou então o ensino técnico concomitante ao médio, onde o aluno faz o ensino médio em outra escola. Tem que fornecer 5% de vagas para cursos técnicos para Jovens e Adultos que não puderam concluir seus estudos quando eram adolescentes. 
Também atuam em programas como Mulheres Mil, Pronatec e muitas outras parcerias com prefeituras, presídios, escolas públicas e universidades. Além disso, têm o status de Universidade, podendo prover cursos tecnólogos, cursos de  Engenharia, Especialização, Mestrado e até Doutorado. O plano inicial era ter um Instituto Federal em cada cidade com mais de 50 mil habitantes.  
Contada essa história, convém observar o tamanho da expansão dos Institutos somente nos últimos quatro anos e a perspectiva para 2017. Na tabela disponível pelo CONIF -- Conselho dos Institutos Federais -- podemos vislumbrar o vigor com que foram abertas vagas e criados campi pelo Brasil afora.  
A perspectiva para 2017 
Para explicar o Orçamento de um Instituto é necessário saber que temos três grandes contas de entradas de recursos.
Na primeira conta entram recursos para custeio. São os gastos triviais de um campus. Existem gastos fixos dentro de cada campus, que são chamados de contratos continuados (guarde bem esse nome!). São exemplos de contratos continuados os serviços de vigilância, manutenção predial, limpeza e jardinagem. Por serem serviços terceirizados a tendência é que esses custos subam ano a ano, principalmente por conta das convenções coletivas onde os salários dos trabalhadores terceirizados são reajustados. 
Nada mais justo num país de inflação acima de 6% ao ano. Na prática, isso significa que todos esses contratos continuarão subindo. Nessa conta também cabem todos os materiais de consumo: papéis, toners de impressoras, lâmpadas, livros, assinaturas de periódicos, uniforme, merenda, refeições (obrigatórias para alunos de curso integral), materiais de consumo em laboratórios, etc.
Pois bem, nessa conta o corte de todos os Institutos Federais, os dois CEFETs e do Colégio Pedro II foi de 46% em comparação com 2016. Dos 3,246 bilhões iniciais somente 1,755 bilhão foram colocados no Plano Orçamentário. Esse corte inviabiliza muitos campi de funcionarem. Em alguns casos, a soma dos contratos continuados é maior que o orçamento dessa conta.
A outra conta de entrada de recursos é própria para obras e aquisição de recursos  permanentes, tais como equipamentos de laboratórios, reformas, novas construções. Nessa conta o corte foi cruel. O orçamento total foi de 120 milhões, o qual foi repartido de forma igual para todos os Institutos. Deu três milhões e pouco para cada um. Apenas para comparar: em 2016 o orçamento nessa conta apenas para o IFSP, por exemplo, foi de 30 milhões. Os Institutos do Nordeste foram os mais prejudicados com esse corte.
A última conta é destinada para Assistência Estudantil. Essa conta pode ser considerada uma das maiores inovações do governo Dilma. O valor é distribuído diretamente aos alunos através de contas bancárias gratuitas. Eu não posso, por exemplo, usar esses recursos para pagar água ou luz. Isso garante que a política social será aplicada de fato. 
Esse orçamento é gerenciado por assistentes sociais que analisam o perfil social de cada aluno e distribuem auxílios para transporte, alimentação, aluguel, creche, compra de material escolar, etc. Também são comuns auxílios para viagens em caso de apresentação de trabalhos aprovados em congressos. 
Nessa conta, importantíssima, pois os alunos dos Institutos pertencem às camadas mais pobres da população, foi mantido o valor de 2016, que foi próximo de 433 milhões. Embora pareça uma notícia boa o fato é que não se levou em conta a inflação e a entrada expressiva de novos alunos. Como nenhuma outra conta reflete tanto o governo Dilma quanto essa, existe o medo generalizado de que venha a ser extinta ou sofra cortes que a mutilem totalmente no próximo ano. 
Nas Universidades Federais as entradas e despesas são um pouco diferentes. Contudo, o corte nos custeios também foi significativo. Em muitos casos não resolve fechar cursos, pois alguns contratos continuados são fixos. A solução mais drástica seria fechar um campus com menos alunos e transferir recursos para os demais. Desnecessário explicar o quanto isso pode afetar regiões inteiras do interior do país.
Alguns campi começam a cortar serviços, o que significa mais gente desempregada. Outros desistem de abrir cursos mais caros. Não haverá investimento em equipamentos, laboratórios e até mesmo compra de cadeiras. Alguns campi devem fechar as portas nos próximos dois anos.
Embora o cenário seja realmente triste é importante lembrar que  os dois últimos atos administrativos do governo Dilma acenaram para os Institutos. Um deles foi criar novos campi Brasil afora. O outro foi suprir os Institutos com mais códigos de vagas para contratar mais professores. 
Como na cena final do filme A Lista de Schindler, onde Oskar Schindler dá uma garrafa de vodca e um pacote de cigarros aos seus empregados judeus para que sobrevivam logo após a invasão russa, assim a Presidenta Dilma nos municiou com prédios e docentes para continuarmos lutando ferrenhamente contra a nova filosofia de sucateamento que advém contra nós. 
Atualmente temos um milhão e duzentos mil alunos e mais de 50 mil servidores. Estamos conscientes de que lutamos pelo nosso futuro e pelo futuro de nossos filhos. Que os jogos comecem...  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CINEASTA GANHA A INTERNET AO RESPONDER A UM TROLL DE SUA FILHA

Meu querido Flávio Moreira me mandou esta mensagem:
"Eu tenho lido cada vez menos os comentários aos seus posts, porque é tanta amargura, tanta gente infeliz, tanta tristeza que me dá uma angústia horrível. Eu quis comentar no seu post sobre os 26 anos de casamento (parabéns a vocês!), mas não tive ânimo. É tanta negatividade por parte das pessoas que fica difícil manter a esperança. Fora o discurso monocórdico do povo que fala 'a esquerda isso, a esquerda aquilo, os petralhas' etc. Onde foi parar a capacidade de auto-crítica das pessoas? Como chegamos nesse nível de polarização mesquinha, violenta, ignorante e brutalizada/ brutalizante? Leio seus textos, porque são quase um alento, mesmo quando não concordo com eles, porque são bem argumentados, tem questionamentos super pertinentes, evita o maniqueísmo e o simplismo. Mas os comentários..."
Filhas de astros: Harley Quinn Smith
e Lily-Rose Depp (filha de Johnny Depp
Depp e Vanessa Paradis) em Yoga Hosers
Concordo, Flavinho! Alguns comentários são só para xingar e ameaçar. Mas é isso que trolls e haters fazem. Eles não têm outra coisa a fazer.
Flavio me mandou um textinho que ele traduziu de algumas palavras do cineasta Kevin Smith. A filha de 17 anos do diretor de Clerks e Dogma pôs uma foto dela no Insagram e recebeu o seguinte insulto (comportamento corriqueiro para a maioria das mulheres online) de um babaca qualquer: 
"Você é feia como a m*rda. E aquela b*sta de filme, Yoga Hosers, deveria ser proibida. Que se f*da o miserável sem talento do seu pai por tentar compará-lo a Matrix. Você é um câncer e eu sinceramente espero que você termine como Lindsay Lohan e morta". 
Kevin Smith respondeu:

Como é ser minha filha: Harley Quinn Smith, 17 anos, recebeu essa mensagem simplesmente pelo crime atroz de postar uma foto de si mesma no Instagram. Não tenho a menor ideia do que a referência ao filme Matrix tem a ver mas, uau -- que forma de descontar numa adolescente o fato de VOCÊ não ter nada melhor para fazer da vida. Mas embora eu devesse estar furioso, minha filha achou isso engraçado. “Eu também ficaria zangada se tivesse pau pequeno e uma voz anônima”, disse ela, perplexa com a amargura [da pessoa]. 
Mas aqui vai de graça um conselho para fulanos como esse troll: se você odeia a mim (ou à minha filha) tanto assim, o melhor uso que você pode fazer do seu tempo é tornar os SEUS sonhos realidade, em vez de bater nos outros por fazerem isso. A melhor vingança é viver insanamente bem -- assim, se você quiser se vingar de uma garota de 17 anos pelo crime miserável de curtir a vida, a melhor forma de fazer isso é ter sucesso na sua PRÓPRIA existência. Mostre ao mundo PORQUE deveríamos estar prestando atenção em você em vez de em qualquer outra pessoa. Porque atacar outras pessoas aleatoriamente só mostra o quão emocional e criativamente fracassado você é. 
Você acredita que tem algo a oferecer ao mundo mas outros estão recebendo toda a atenção? Não fique se amargurando ou querendo castigar o mundo: apenas crie. Crie algo que ninguém tenha visto antes, e há uma boa chance de que o mundo note você. Atacar garotas adolescentes na internet é a forma mais triste de masturbação que existe e não exige qualquer habilidade ou talento. Você quer atenção? Não se irrite, faça algo original e divertido. Porque se você não está fazendo nada de útil nesse mundo você está sendo imprestável. Não seja um inútil: vá fazer coisas que deixem as pessoas felizes!

domingo, 21 de agosto de 2016

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA DISCUTIR GÊNERO ATRAVÉS DE CINEMA E LITERATURA

Pessoas queridas que moram no Ceará, aviso que estão abertas as inscrições para o curso de extensão Discutindo gênero através de cinema e literatura. A primeira aula será dia 31 de agosto. 
As aulas nos outros módulos (este é o quinto) foram às terças-feiras, mas como neste semestre terça será o meu dia mais ocupado, decidi mudar o curso pras quartas. Então será às quartas, a cada quinze dias, das 11:30 às 13:30, no horário do almoço pra que a galera que estuda e/ou trabalha possa vir. E sempre na UFC, CH1, campus Benfica. 
Na realidade, são apenas oito encontros durante o semestre. Uma quarta a gente tem aula, na outra cada participante tem que ler o material e ver o filme. Quem vier a 75% do curso recebe um certificado no final de 32 horas.
O curso do semestre passado foi o melhor de todos, graças à participação do pessoal, muito interessado e diverso. É bacana porque vem gente de várias universidades e de vários cursos, e também gente que não está na universidade, com vivências e conhecimentos variados. 
Quem realmente quiser fazer o curso (digo isso porque infelizmente, pra curso grátis, sempre tem quem se inscreve mas não aparece, o que pode tirar a vaga de outra pessoa), envie um email pra lolaescreva@gmail.com . E seja rápidx, porque sempre lota. Já tem 50 pessoas inscritas. Não gosto de colocar um limite porque, como eu disse, tem quem se inscreve e não vem, mas temos um limite físico pra sala de aula. 
E gente, aceito sugestões de livros, contos, poemas, artigos teóricos (de preferência em português) e filmes para os semestres que vem. Recomendem discussões interessantes que vocês tiveram por aí. 
Vejam o cronograma do semestre passado. Aqui o cronograma inicial para este segundo semestre de 2016.2: 

CURSO DE EXTENSÃO 
DISCUTINDO GÊNERO ATRAVÉS DE LITERATURA E CINEMA
Quartas (quinzenalmente), das 11:30 às 13:30 

31 de agosto -  Introdução ao curso, expectativas. Trazer lido de casa, para discussão: Teoria do Cinema Feminista, Parte II: Os pontos de vista femininos e Parte III: Teorias das minorias

Lição de casa para 14 de setembro: Assistir ao filme Garota Exemplar e ler os artigos “Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas” de Guacira Lopes Louro  e “Pensando o sexo: notas para uma teoria radical das políticas da sexualidade” de Gayle Rubin (até a pg. 21) 

14 de setembro. Discussão do filme Garota Exemplar e dos artigos de Louro e Rubin. 

Lição de casa para 28 de setembro: Assistir ao filme A Vida Secreta das Abelhas e ler o artigo de bell hooks “Mulheres negras: moldando a teoria feminista” 

28 de setembro. Discussão do filme A Vida Secreta das Abelhas e do artigo de hooks.

Lição de casa para 5 de outubro. Assistir ao filme Garota Dinamarquesa e ler os capítulos “O que é a contrassexualidade?” (pg. 21-33) e “Príncipios da sociedade contrassexual” (pg. 35-43) de Beatriz Preciado 

5 de outubro. Discussão do filme Garota Dinamarquesa e dos capítulos de Preciado. 

Lição para 26 de outubro: Assistir ao filme Precisamos Falar sobre Kevin (livro aqui) e ler partes do capítulo III: O amor forçado (a partir da pg. 237 a 366), de Elisabeth Badinter. 

26 de outubro. Discussão do filme Precisamos Falar sobre Kevin e do capítulo de Badinter.

Lição para 9 de novembro. Assistir ao filme As Sufragistas e ler os artigos “O feminismo marxista de Heleieth Saffioti”, de Renata Gonçalvez e “Marxismo e feminismo hoje”, de Judith Orr 

9 de novembro. Discussão do filme As Sufragistas e dos artigos de Gonçalvez e Orr.

Lição de casa para 23 de novembro: Ler o conto “O Sonho de Sultana”, de Rokeya Sakhawat Hossein (1905). Ler os artigos “Um toque de recolher para homens seria válido para a sociedade?”, de Euclides Montes e “Feminismo e Utopia”, de Susana Bornéo Funck 

23 de novembro. Discussão do conto “O Conto de Sultana” de Hossein e dos artigos de Montes e Funck.

Lição de casa para 7 de dezembro: Ler o livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood e o artigo de Eliane Campello “A visão distópica de Atwood na literatura e no cinema”

7 de dezembro. Discussão do livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e do artigo de Campello. Encerramento do semestre.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A INSOLÊNCIA DOS DONOS DO MUNDO

Todo mundo sabe o que aconteceu com o nadador americano Ryan Lochte, certo?
Torcida brasileira faz
cartaz de "mentiroso"
No último domingo, lá pelas 6 da manhã, Lochte e outros três colegas americanos da natação voltavam bêbados para o alojamento olímpico quando decidiram parar num posto de gasolina na Barra da Tijuca, aparentemente procurando um banheiro. Como o banheiro do posto estava trancado, os rapazes arrombaram a porta. E também mijaram no chão e quebraram coisas, de acordo com algumas versões. Um segurança armado, um policial de aluguel, chamou a polícia e ordenou que eles esperassem. A polícia não apareceu. Antes de irem para o alojamento, os nadadores, com a ajuda de um cliente que serviu de intérprete, se entenderam com os funcionários e pagaram 100 reais e vinte dólares para cobrir parte do estrago que tinham feito.
Se os rapazes tivessem ficado quietos, talvez a bagunça que eles provocaram teria rendido uma notinha em algum jornal num dia parado. Mas Lochte contou para a sua mãe que havia sofrido um roubo à mão armada, e a mãe falou à imprensa. Perguntaram a Lochte o que havia acontecido, e ele escreveu no Twitter e Instagram: "Enquanto é verdade que meus colegas de time e eu fomos vítimas de um assalto no domingo de manhã, o mais importante é que estamos bem e ilesos". 
A polícia e a imprensa passaram a investigar o ocorrido, e rapidamente, graças a vídeos no posto e na entrada da Vila Olímpica, viram que a história não colava. 
Lochte conseguiu embarcar num voo na segunda-feira, antes que fosse "convidado a prestar depoimento", mas seus colegas seguiram no Brasil até ontem, quando foram liberados após depor. Dois deles relataram à polícia que o roubo foi uma invenção. Ontem o Comitê Olímpico dos EUA pediu desculpas pelos "transtornos" e disse que o comportamento dos nadadores foi "inaceitável". E a polícia do Rio indiciou o atleta por falsa comunicação de crime.
Não sei exatamente por que a mídia brasileira está dando tanta atenção ao caso (é complexo de vira-lata, dizem os correspondentes estrangeiros), mas certamente não é a única. O escândalo estourou também nos EUA e na Grã Bretanha. Ontem nas redes sociais, vários americanos perceberam que o comportamento desses nadadores estava sendo visto como brincadeira, coisa de moleque, por eles serem homens brancos
Privilégio branco é por que rimos de
Lochte e vilanizamos Douglas
A comparação óbvia é com a ginasta Gabby Douglas, sensação na Olimpíada de Londres, antes de perder os holofotes para Simone Biles. Na semana passada, Gabby foi muito criticada em seu país por não por a mão sobre o peito enquanto o hino dos EUA era tocado em homenagem à medalha de ouro que as americanas ganharam por equipe na ginástica artística. Gabby não inventou assalto, não mentiu, não quebrou banheiro, não urinou no chão. Tudo que ela fez foi não responder ao hino "como se deve". 
Será que, se o atleta que tivesse mentido e inventado um assalto fosse negro, ou fosse mulher, ou não fosse americano, o tratamento seria o mesmo que Lochte está recebendo? (Parece que não: é verdade que um campeão olímpico foi abordado agressivamente pela polícia, que lhe apontou uma arma -- mas não foi o nadador branco, e sim um ex-atleta do Quênia). 
Será que, se o atleta não fosse um homem branco, ele ouviria palavras tão gentis do coordenador de comunicação do Rio 2016? O coordenador primeiro pediu desculpas aos nadadores pela violência sofrida e, após descobrir que não foi bem assim, continuou aliviando a barra deles: "Precisamos entender que esses garotos vieram aqui para se divertir. Vamos deixá-los em paz. Às vezes, você toma decisões que depois se arrepende. Eles foram se divertir, cometeram um erro, e a vida segue".
É claro que Lochte não matou ninguém, e talvez o caso nem seja tão sério assim -- é só mais um exemplo do que se costuma chamar "Ugly American", ou seja, o americano arrogante que se sente o dono do mundo e maltrata as demais culturas. Mas este caso me lembrou bastante um acidente terrível que agora no final de setembro completa uma década.
A queda do Boeing 737 da Gol foi um dos piores desastres aéreos da história do Brasil. 
154 pessoas morreram (a maioria brasileiros, mas entre as vítimas havia 43 estrangeiros, entre eles 6 americanos, que iam de Manaus para o Rio no Voo 1907). Porém, por incrível que pareça, faltou à imprensa daqui um esforço de reportagem como o de William Langewiesche. Ele teve acesso às transcrições das caixas-pretas do Boeing e do Legacy e publicou uma excelente matéria na revista Vanity Fair em janeiro de 2009, "The devil at 37,000 feet" (o diabo a 37 mil pés) -- leia aqui, em inglês. 
A história envolve dois aviões. Um deles era o Legacy, um jatinho que comporta 13 pessoas (no dia do acidente, havia quatro: dois pilotos, um jornalista e um executivo de vendas, todos americanos), vale 25 milhões de dólares, torra recursos e polui (gasta 300 galões de gasolina por hora).  
Os pilotos americanos do Legacy 3
meses depois do acidente, já nos EUA
Por algum motivo ainda mal explicado, no dia 29 de setembro de 2006 o Legacy estava voando a 37 mil pés, quando deveria estar a 36 mil (nem o controle de tráfego aéreo nem os dois pilotos americanos perceberam, ou pelo menos ninguém comunicou nada). Mas só isso não teria sido suficiente para causar um acidente. Aí o transponder (um radar que mostra onde o avião está) do Legacy parou de funcionar, o que também não é tão incomum. 
Familiares das vítimas do voo 1907
passaram anos pedindo justiça
O sargento (pois o tráfego aéreo brasileiro é controlado por militares) que estava em serviço supervisionando o Legacy acabou seu turno e foi substituído por outro sargento, que tentou se comunicar cinco vezes com o jatinho mas não conseguiu. O transponder voltou a funcionar sozinho, mas em standby, e nenhum dos dois pilotos notou. Um dos pilotos foi ao banheiro e voltou 17 minutos depois. O Legacy continuava sendo um ponto cego no céu, invisível a outros aviões.
Memorial das vítimas
Três minutos antes do acidente, o sargento foi capaz de falar com o Legacy e pediu para que os pilotos entrassem em contato com o controle de Manaus. Eles não entenderam, e o rádio ficou mudo.
No Boeing 737 da Gol corria tudo normal. O voo estava em automático e os experientes pilotos se divertiam compartilhando fotografias pessoais. Uma comissária de bordo entrou na cabine para falar do vídeo da modelo Daniela Cicarelli transando com o namorado no mar. 
Na colisão, a asa do Legacy funcionou como uma faca, fatiando a asa esquerda do Boeing. O avião da Gol automaticamente começou a cair. A cabine se encheu de sons de alarmes. Podem-se ouvir gritos dos passageiros. Um piloto pediu "Calma!" para o outro. Quando o Boeing chegou aos 7 mil pés, ele se rompeu em três partes, que despencaram na floresta abaixo, sem sobreviventes.
No Legacy, com a batida, um piloto perguntou pro outro: "Que diabos foi isso?" Antes de conseguirem aterrizar o jato, o transponder voltou a funcionar. Os pilotos ainda não tinham certeza que haviam colidido com um outro avião. Ficaram sabendo só depois, no chão. Os dois pilotos tiveram que permanecer dois meses no Brasil. Depois voltaram para Nova York e voltaram a voar, mas só dentro dos EUA. 
Pilotos americanos foram recebidos
com festa por cerca de 200 pessoas ao
voltarem aos EUA, 70 dias depois
da colisão com o Boeing 737
Em 2012 foram condenados por negligência a cumprir serviços comunitários (não no Brasil, mas nos EUA).  
Eu sempre pensei: e se dois pilotos brasileiros dirigindo um jatinho no espaço aéreo americano se envolvessem num acidente que causasse a morte de 154 americanos? Os EUA permitiriam que os brasileiros retornassem ao Brasil tão rapidamente? A punição seria tão irrisória?
Parece que, quando as falhas são cometidas pelas partes privilegiadas dos donos do mundo, haverá sempre alguém para perdoá-los.