quarta-feira, 24 de maio de 2017

GUEST POST: INTRODUÇÃO AO ARROMANTISMO, OU AUSÊNCIA DO AMOR ROMÂNTICO

Adoro publicar guest posts sobre temas que desconheço totalmente. A palavra da vez é arromantismo. Você já ouviu falar?
Ulisses Constantino é guardião de piscinas (em outras palavras: salva-vidas), tem 30 anos e mora sozinho. E decidiu compartilhar conosco seu conhecimento sobre arromantismo.

Arromantismo é ausência ou pouca presença de amor romântico.
Uma pessoa arromântica é alguém que não sente atração romântica por nenhum sexo ou gênero. Atração romântica, basicamente, é o impulso emocional que faz com que alguém queira namorar uma pessoa; é a capacidade que alguém tem em se apaixonar romanticamente por uma pessoa ou sentir crush por ela.
Ou seja, pessoas arromânticas não se apaixonam nem sentem crush por ninguém. Por isso, geralmente, não têm vontade de namorar. Vale ressaltar que o que define uma arromântica é a incapacidade de se apaixonar e ter crush e não a negação em namorar. Há arromânticas que querem namorar, apesar de não serem capazes de se apaixonar, de sentir amor romântico. O simples fato de alguém não querer namorar não faz dela uma arromântica. Uma arromântica não é alguém que reprime os próprios sentimentos românticos quando se apaixona. É alguém que não possui amor romântico e é incapaz de se apaixonar em primeiro lugar. É isso o que define uma arromântica.
Não se deve confundir arromantismo com assexualidade, que é a ausência ou pouca presença de atração sexual.
O arromantismo é uma orientação romântica, isto é, indica por qual gênero ou sexo a pessoa é capaz de se apaixonar ou ter crush. Porém, várias pessoas afirmam que o arromantismo não é uma orientação romântica, pois não há nele presença de amor romântico. 
Existem, basicamente, dois tipos de arromânticas: as sexuais e as assexuais.
As arromânticas sexuais (ou eróticas) não se apaixonam nem desejam namorar, porém, sentem atração sexual, isto é, vontade de transar. Sentem-na mas sem se apaixonarem nem terem crush pela pessoa objeto de sua atração. 
As arromânticas assexuais não se apaixonam nem desejam namorar e também não sentem atração sexual, isto é, não sentem vontade de transar. Elas podem se masturbar ou não. A masturbação não é critério de definição de orientação sexual ou romântica.
Teoricamente, a princípio, nenhuma arromântica assexual gosta de beijo na boca. Mas, na minha opinião, não existe um consenso na comunidade arromântica sobre se gostar de beijo na boca faz com que uma pessoa deixe de ser arromântica assexual ou não. Para algumas pessoas, o beijo na boca é um ato sexual. As arromânticas sexuais podem usá-lo como aquecimento. Para outras, o beijo é um ato romântico. Para as assexuais românticas, ele é uma demonstração de amor romântico e carinho para com o ou a parceira. Para outros ainda, o beijo é um ato romântico e sexual ao mesmo tempo.
É que na questão do namoro ou do sexo, o contato físico é praticamente onipresente. Existem 3 elementos ou ações na questão do contato físico em um relacionamento: 1) o beijo, especialmente o beijo na boca; 2) chamegos e carícias (incluindo abraços e toques); 3) sexo.
Bandeira do orgulho arromântico
Para as arromânticas assexuais, não existe o menor desejo de praticar uma das três ações. Porém, praticar uma das 3 ações com alguém não significa que ela seja sexual ou romântica, pois o que define tanto o arromantismo como a assexualidade é a ausência ou a inexistência da paixão romântica ou da vontade de transar, respectivamente. 
Arromânticas não são psicopatas, nem psicóticas. Arromânticas assexuais não são frígidas, frias ou desumanas. Arromânticas sexuais não são taradas ou ninfomaníacas. Ser arromântica não significa ser sexualmente promíscua.
Dentro do espectro arromântico, existe uma área cinza. Nela estão, entre outras, as demirromanticas, as lithorromanticas e as gray-aro ("aro" é o apelido das arromânticas, assim como "ace" é o apelido das assexuais, e "gay" é o apelido dos homossexuais).
As demirromânticas só sentem atração romântica secundária. Em outras palavras, só se apaixonam ou têm crush após formarem uma ligação emocional — geralmente platônica — com alguém. Tal ligação só é formada após se tornar amiga da pessoa ou passar algum tempo convivendo com ela.
As gray-aro são pessoas que se apaixonam ou têm crush rara ou irregularmente. Nas vezes em que sentem atração romântica, ela não se manifesta na mesma intensidade ou tem a mesma duração. Varia muito, pois elas raramente sentem atração romântica e o modo como se manifestam é irregular.
As lithorromânticas são pessoas que se apaixonam, porém, não querem que tal paixão seja recíproca, correspondida, ou não querem que a pessoa objeto saiba da existência de tal sentimento nem querem namorá-la. 
Se o sentimento for recíproco, correspondido ou houver namoro, a paixão extingue-se espontaneamente, mesmo que de maneira gradual.
Uma coisa que faz com que muitas arromânticas sofram é a amatonormatividade presente na sociedade. 
Citado pela primeira vez pela filósofa Elizabeth Blake, em seu livro Minimizing Marriage (Minimizando Casamento), amatonormatividade é a presunção de que um relacionamento amoroso principal exclusivo é normal para os seres humanos, no sentido de ser um objetivo universalmente compartilhado e que tal relacionamento é normativo, de tal forma que ele deveria ser almejado em detrimento de outros tipos de relacionamento. Tal norma social resulta, segundo ela ainda, no sacrifício de outros tipos de relacionamentos em favor do amor romântico e do casamento e relega a amizade e a solidão à invisibilidade cultural.
Isso é diametralmente oposto ao arromantismo e ao espectro arromântico. Tal conceito é tema de debates na comunidade arromântica. 
No Brasil, as pessoas arromânticas, assim como as assexuais, não têm visibilidade. As assexuais, aos poucos, estão ganhando visibilidade. Mas as arromânticas ainda estão no esquecimento. Na época em que eu tinha Facebook (excluí a minha conta) havia um grupo chamado “Arromânticos e Arromânticas”. Acho que foi o primeiro grupo online voltado exclusivamente para arromânticas do Brasil. 
Espero ter ajudado a dar mais visibilidade à comunidade arromântica com este post. Se alguma leitora ou leitor se identificou com esse texto, saiba que você não está sozinha e que não há nada de errado contigo. Ser arromântica é normal: você apenas não possui o sentimento romântico e não tem necessidade emocional de ter uma namorada ou namorado. 
Você pode decidir ficar sozinha ou cultivar amizades. Você não é psicopata, nem monstro, nem aberração, nem doente mental. Você apenas não sente atração romântica: não se apaixona romanticamente nem tem crush por ninguém. 
Assuma o seu arromantismo e seja feliz! Você ainda é capaz de amar de outras formas!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

FEMINISTA RADICAL REJEITA O RÓTULO DE TRANSFÓBICA

Uma moça que mora na Europa e que se identifica como feminista radical me enviou, após ler este post, o texto que publicarei abaixo, depois de alguns esclarecimentos meus.
De minha parte, repito o que já disse várias vezes: prefiro me declarar apenas feminista, sem pertencer a qualquer corrente. A maior parte das pessoas nem conhece as vertentes (feminista liberal, feminista radical, feminista marxista, feminista interseccional, feminista negra, transfeminista, etc) e, pra quem não gosta de feminismo, toda feminista é radical. Eu sou vista como feminista radical tanto pelos sujeitos que me ameaçam de morte quanto pelos que passam o dia me zoando nas redes sociais. 
Creio que feministas não podem se dar ao luxo de serem preconceituosas. E vejo várias feministas assumidamente radicais adotando um discurso transfóbico (como pode ser visto facilmente nas caixas de comentários deste e de tantos outros blogs), negando-se a tratar uma mulher trans pelo nome que ela escolheu, por exemplo, recusando que ela se identifique como mulher. Tratam melhor os homens trans apenas porque não os veem como homens. 
Por outro lado, discordo da tentativa de algumas transativistas de tentar coibir certas pautas só porque não as contemplam, como falar sobre menstruação, por exemplo. 
Trouxemos para o Brasil uma briga absurda entre transativistas e feministas radicais, uma briga que começou (e continua) nos EUA e que não deveria ter vez aqui. Enquanto brigamos entre nós por besteiras, nossos inimigos se unem para atacar a todas nós, sem diferença. Pensava que essa briga havia enfraquecido nos últimos tempos (ainda bem!), mas, pelo jeito, me enganei. 
Não concordo com muito do que M. escreveu, mas publico aqui sua opinião. 

O que observo é o seguinte: pessoas trans atacam muito mais mulheres críticas do conceito de gênero do que homens críticos do conceito de gênero.
Pessoas trans, nas raríssimas vezes que atacam homens críticos do conceito de gênero, não são tão agressivas em comparação com os ataques que lançam contra as mulheres críticas do conceito de gênero.
Qualquer mulher crítica à identidade de gênero é logo chamada de escória. Quem gosta de insultar-nos só por termos uma visão diferente? Homens.
Passando, agora, à crítica de gênero: as mulheres trans dizem que os críticos de gênero são transfóbicos porque são unicamente críticos de gênero para atacá-las. Acredito que muitas pessoas sem vida sejam assim, mas eu sou crítica do gênero porque sou contra a visão social conservadora de que cada sexo deve integrar-se num determinado tipo de comportamento. Simplesmente, enquanto trans defendem a criação de mais caixas (binário, não-binário, demiboy, demigirl, gênero fluido), eu defendo que não devem existir caixas, que cada um é como desejar, independentemente do sexo com o qual nasceu, e pronto. 
Defendo que uma criança não tem essa doença do século XXI inventada e chamada distúrbio de identidade de gênero; defendo que essa criança é normal, saudável e que não precisa de tratamento hormonal nenhum. Só precisa ser protegida pelo preconceito e que os pais digam que ela é como é e isso não implica que tenha de mudar de sexo. Tão simples quanto isso. Penso que esse ponto de vista seja bem mais libertador do que reduzir o indivíduo ao seu sexo ou criar mais e mais caixas.
Também quero afirmar que não sou contra a transsexualidade em si; apesar de discordar da criação de mil caixas, compreendo que muitas pessoas tenham decidido mudar de sexo por serem alvos de preconceitos vazios que insistem em ligar sexo a comportamento. Não sou contra alguém ser transsexual, apesar de, para mim, não existir gênero (como referi acima, vejo o gênero como uma imposição social, e o fato de muitas pessoas mudarem de sexo para se sentirem confortáveis mostra isso); sou, sim, contra as proporções que o transativismo está tomando, atacando mulheres e sobrepondo os seus assuntos aos outros problemas pelos quais as mulheres passam. 
O transativismo banalizou tanto a transfobia que tornou-se impossível discutir seja o que for sem ficarmos com medo de sermos chamadas de transfóbicas. Sou contra o que o transativismo afirma sobre o que é ser mulher, de que mulher é um estado de espírito: digam isso a quem nasce com vagina e que, por isso, sofre de mutilação genital, tráfico humano para prostituição e pornografia, crimes de honra, casamento forçado. Dizer que mulher é um estado de espírito, quando os maiores crimes contra nós acontecem por causa do nosso corpo, é uma falta de respeito tão atroz que transcende todos os círculos racionais da humanidade. 
Na China olham para uma bebê acabada de nascer e dizem "Oh, a alma desta criaturinha é feminina, por isso vamos deixá-la num orfanato para que depois morra de inanição". Essa bebê vai ser lançada para o orfanato e deixada para morrer por causa do seu corpo. Por ter vagina. O nosso corpo é instrumento político para que continuemos a ser exploradas, silenciadas, assassinadas. Considerações metafísicas só existem mesmo no transativismo, porque na prática elas não acontecem.
Sou contra gastar metade do nosso rico tempo para discutir se mulheres trans são realmente mulheres, discussão essa que começa sempre por causa delas, quando devíamos estar discutindo, por exemplo, a ignomínia dos Boko Haram, que raptam centenas de meninas, violam-nas, matam-nas e usam-nas como bombas humanas. Tudo isso deixou de ser irrelevante atualmente: é só entrar num grupo ou num fórum feminista, pesquisar e contar o número de discussões sobre pessoas trans e o número de discussões sobre estupros, violência doméstica, não sei quê. As primeiras abafam as restantes em número tranquilamente, porque ai de nós se nos enganarmos e chamarmos uma mulher trans pelo seu antigo nome e não pelo seu novo nome (mesmo que o engano seja genuíno e não intencionalmente maldoso). 
O fato dos pró-transativistas serem favoráveis à prostituição também devia ser um alerta; em vez disso, é visto como empoderamento e libertação, quando 80% das mulheres que se prostituem não querem mais se prostituir. Enaltecer uma minoria (mulheres trans e poucas mulheres nascidas com vagina) em detrimento de 80% das mulheres que se sentem oprimidas e violentadas pela prostituição (sendo a maioria mulheres negras, que são só as mulheres com menos direitos dentro do próprio universo das mulheres) é uma afronta hedionda.
Aviso: mulheres não precisam ser
educadas com alguém as faz
desconfortáveis
Sou uma mulher que odeia intolerâncias e discriminações. Assim como odeio que discriminem alguém, odeio que esse alguém discrimine mulheres. O transativismo atual discrimina mulheres que rejeitam o conceito de gênero e não sou obrigada a aceitar esse transativismo dentro do feminismo: por que tenho que aceitar pessoas que nos intimidam como fazem os homens, ao mesmo tempo que identificam-se como mulheres? Por que tenho que abraçar alguém que me dá uma facada só porque tenho uma opinião diferente? Para isso volto para o meu antigo relacionamento abusivo, é a mesma coisa.
Pichação transfóbica em banheiro
de universidade
Assim como não sou obrigada a concordar com a identidade de gênero, não sou obrigada a aturar ameaças de morte porque não concordo com identidade de gênero. As mulheres trans responsabilizam as feministas radicais pelos seus suicídios: até hoje nunca vi uma feminista radical provocar terror psicológico numa trans para que essas acusações sejam legítimas. Isso me faz lembrar do meu ex-namorado que arrombou a janela da minha casa e quis fazer as pazes comigo à força (em outras palavras, tentou me estuprar) e quando consegui afastar-me definitivamente dele ameaçou suicidar-se e queixava-se que eu o tinha destruído por eu não querer ficar mais com ele. Semelhanças entre o que mulheres trans dizem sobre feministas radicais e a manipulação psicológica dos homens em relacionamentos abusivos é mera coincidência.
Pessoas que matam trans por serem trans me dão tanto asco como pessoas que matam mulheres por serem mulheres; por isso é complicado ficar calada quando me chamam de transfóbica só porque rejeito coisas como o gênero. Alguém trans é um ser humano, tal e qual como eu, reconheço-lhe direitos e não aceitarei que alguém lhe retire esses direitos -- mas, ao mesmo tempo, não vou aceitar que uma pessoa trans me chame de puta só porque não estou de acordo com aquilo que ela defende. Repito, quem faz isso (insultar, humilhar, bater, quando uma mulher não concorda com alguma coisa) são os homens. Tenho dito.
Por último, assim como não sou obrigada a aceitar o supracitado, muito menos sou obrigada a aceitar ativistas trans que orgulham-se em ter die cis scum (morra escória cis) no braço, enquanto posam para uma fotografia com taco de basebol na mão como símbolo bem expressivo de que as palavras escritas não são meras palavras. Lamento muito pela minoria trans que é inofensiva e até se envergonha destas atitudes, mas como a maioria já comprovou ser perigosa, cujo objetivo último é calar as mulheres dentro do próprio feminismo, não encontro compatibilidade para convivermos todos em harmonia e, obviamente, vou defender as minhas irmãs e não quem exige direitos enquanto violenta e abafa os direitos dos outros -- neste caso, os nossos.
Posto isto, só me resta desejar todas as felicidades do mundo para a Lola, até porque é uma das pessoas que mais merece, por dar a cara e a coragem na luta pelos direitos das mulheres.

domingo, 21 de maio de 2017

REFLEXÃO DE DOMINGO

Diretas Já, por favor!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

SHEHERAZADE, PT DA ALEMANHA E AS LOUCURAS QUE SÓ A INTERNET PROMOVE

Desde ontem à noite, a jornalista Rachel Sheherazade está nos Trending Topics do Twitter devido a mais esta pérola: "Hitler fundou o PT da Alemanha". 
Parece que tudo começou numa resposta que ela deu a alguém. Para os reaças, principalmente agora, que Aécio Neves foi totalmente desmascarado, Aécio e o PSDB sempre foram de esquerda. E os reaças só votaram nessa esquerda por falta de opção, tadinhos. (Desnecessário dizer que, se houvesse um segundo turno hoje entre Dilma e Aécio, os reaças em massa continuariam votando em Aécio, já que a preocupação com o fim da corrupção é pura fachada).
Houve muitos tuítes bacanas para rir dessa barbaridade do "nazismo é de esquerda" -- que não é, de maneira alguma, uma criação de Sheherazade. Aqui no Brasil, quem mais propaga essas besteiras é Olavo de Carvalho, de quem a jornalista é discípula.

Esse é o tipo de coisa que praticamente só se vê na internet (de vez em quando alguma professora olavette leva isso aos seus infelizes alunos de ensino médio). Eu nunca tinha ouvido falar em "nazismo é de esquerda" até que comecei este bloguinho, há 9,5 anos. Aí, já no primeiro mês, tenho certeza, veio algum comentarista reaça tentar me convencer que Hitler era o maior esquerdopata. 
E é mais sobre isso do que sobre as alucinações de Sheherazade que desejo falar neste curto post (porque tenho aula daqui a pouco). Faz alguns meses vi um bom filme chamado Negação (Denial, do ano passado). É baseado numa história real: um revisionista histórico, David Irving, que nega até hoje que o holocausto aconteceu, processou no final dos anos 1990 a professora de História Deborah Lipstadt, uma judia que o chamou de "negador do holocausto" num de seus livros (tipo um estuprador processar uma ex-ministra por chamá-lo de estuprador, sabe como é?). 
Deborah Lipstadt em 2000
Eu me identifiquei bastante com a história porque é sobre um neonazi maluco processando uma pessoa que faz um trabalho sério (eu também estou sendo processada por mascus. Esses neonazistas e eleitores de Bolso me ameaçam e difamam quase que diariamente, e eles é que me processam!).
O julgamento de Negação é muito interessante, até porque os advogados de defesa praticamente tiveram que provar na Corte Britânica que o holocausto de fato ocorreu. E, assim como  certos gurus da direita brazuca que nunca cursaram Filosofia mas se declaram filósofos, Irving nunca cursou História, mas se autoproclama historiador. 
Porém, como todo o caso do julgamento aconteceu nos primórdios da internet, tenho certeza seria muito diferente hoje. Duvido, por exemplo, que a professora conseguiria continuar fazendo cooper na rua. Ela receberia ameaças de morte e estupro da parte de neonazistas o tempo todo. 
O revisionista histórico David
Irving hoje
Na época, Irving não apenas foi humilhado e desacreditado em público, como também teve que decretar falência. Mas tudo mudou com a internet. Como diz James Libson, um dos advogados de defesa do caso (ou seja, contra a negação do holocausto):
"Nós realmente acreditamos que o veredito seria um divisor de águas, que marcaria a negação do Holocausto como um assunto acabado. Provamos conclusivamente, numa corte, que o Holocausto aconteceu. E, de forma ingênua, achamos que a internet poderia ajudar nisso. Todo o material do caso foi publicado online; acreditávamos que isso providenciaria respostas a qualquer um que duvidasse. Mas, é claro, a internet fez o oposto." 
Hoje a negação do Holocausto floresce na net. Inclusive, muitos judeus protestam que, nas ferramentas de busca, se você escrever "holocausto", aparecem mais sites negando algo super documentado do que depoimentos de sobreviventes. É a mesma coisa dos reaças que juram que o nazismo foi de esquerda. Não precisa provar nada. Basta fazer memes, comparar siglas, dizer que o nazismo também adotou a cor vermelha. E pronto, tá provado: Hitler era petista.
Mais fascinante ainda é que David Irving nunca em sua vida esteve tão bem. Dezesseis anos depois de ser dispensado como uma fraude na Corte, hoje ele tem milhares de seguidores, vende um monte de livros, dá dezenas de palestras. Nos últimos dois anos, as doações que recebe aumentaram muito. Hoje Irving dirige um Rolls-Royce e vive numa mansão de 40 quartos, um presente de um fã. Seus novos seguidores, diz Irving, são todos eleitores de Donald Trump.
Porque nazismo, né, não tem nada a ver com a direita... Imagina se tivesse.