segunda-feira, 26 de junho de 2017

GUEST POST: EXPERIÊNCIA COM UM ALUNO MISÓGINO FÃ DE BOLSONARO

Recebi este email da F. 

Olá, Lola. Tudo bem? Gostaria de compartilhar contigo uma das experiências mais marcantes que passei como educadora de Ensino Médio. Aconteceu esse ano, e ainda me sinto um pouco incapaz e abalada com a situação. O título é autoexplicativo, então vamos aos fatos...
Sou professora de Literatura de algumas tradicionais escolas. Escolas de excelente ensino e das quais me orgulho muito de fazer parte.
Por mais que pareça masoquismo para alguns, eu amo a minha profissão, gosto de lidar com adolescentes e já estou nessa rotina há quase uma década. Nunca pensei em ser outra coisa na vida, sempre fui apaixonada por Literatura e esse me pareceu ser o caminho natural se percorrer. A Literatura, por sinal, salvou a minha vida em tantos aspectos que não poderia enumerar todos!
Não tenho filhos (nem pretendo ter) então acabo me envolvendo muito nas vidas dos meus alunos, pessoas que aprendi a respeitar. Eu tive uma adolescência pobre e de periferia, então tinha muitas ressalvas quanto a meninos ricos tais como esses que hoje eu ajudo a educar. A verdade é que esse pessoal tem problemas que, na minha cabeça juvenil, gente rica nunca deveria ter. Posso citar abandono, abuso físico e sexual, assédio moral, entre várias situações que pensamos estar longe de famílias abastadas.
A história que vou contar é sobre um desses meninos que passou em minha vida. O caso é que eu nunca tive problemas com estudantes, eu sempre fui muito próxima deles (mesmo ministrando uma disciplina que não é muito atrativa a essa faixa etária) e sempre desenvolvi atividades dinâmicas, divertidas e multidisciplinares, pois sabemos que não é fácil "enfiar" Barroco ou Parnasianismo pelas goelas deles. Vou chamar esse moço de Homero.
Homero chegou até nós com um histórico de expulsão de outras duas escolas da capital. Ouvimos de colegas que trabalhavam nessas outras instituições que iríamos aguentar uma "barra", que esse garoto era problemático e que era extremamente dissimulado. Eu ouvia àquilo tudo cabisbaixa e pensando em como meus colegas poderiam formular tais considerações acerca de um menino de (na época) 15 anos. Até então, eu não sabia o porquê dele ter passado por isso, e como gosto de desafios, logo quis "adotar" o caso dele para mim.
Quando entrei para dar aula, percebi que Homero era muito quieto e que estava sempre com um livro nas mãos. Ele lia compulsivamente, mas uma literatura muito específica: livros sobre economia, estratégias de convencimento, estudos de especialistas que "venceram" na vida etc. Eu sempre me aproximei dele para conversar e para tentar entendê-lo, mas ele pouco me dava atenção (tanto a mim como a seus colegas). Aos poucos, no entanto, ele foi "mostrando as garras".
A primeira vez em que vi o machismo de Homero foi num debate de interpretação de texto em que coloquei para eles a música "Pretty hurts", da Beyoncé, em comparação com um poema de Cecília Meireles. Homero levantou a mão e pediu para falar. Deixei que falasse e me senti enjoada. Resumidamente, o rapaz afirmou que "esse papo de padrão de beleza" era coisa de "feminista gorda de perna peluda". 
Eu me senti tão chocada que não conseguia nem sequer formular uma frase coerente. Em tempos de "escola sem partido", tento me policiar ao máximo para que o que eu diga não pareça imposição de ideologia, mas não consegui colocar panos quentes na situação. Me recompus e expliquei a ele, com dados e alguns exemplos, que infelizmente mulheres morriam todos os dias em busca de um padrão que dificilmente é alcançado. Homero riu, fez uma negativa e abaixou a cabeça. As colegas dele ficaram visivelmente constrangidas, sem contar a maioria dos meninos que pude observar.
Posteriormente, descobri com o professor de História que Homero contestou uma questão da prova de sua disciplina porque não concordava com os dados da escravidão no Brasil que se encontravam ali. Segundo ele, o trabalho escravo foi necessário e fazia falta. Novamente fiquei bestificada. O professor perguntou de onde ele havia tirado isso. Segundo ele, suas inspirações são pensadores "de fora do MEC": Olavo de Carvalho, Danilo Gentili, Kim Kataguiri e, claro, Bolsonaro e cia. Confesso que não fiquei surpresa, infelizmente.
Em situações posteriores, sempre que tinha oportunidade, Homero disferia alguma piadinha, algum comentário misógino (devidamente rebatido por mim sem que ele se propusesse a continuar a discussão), até que chegou ao seu ápice. Vou contar como foi.
Um dos trabalhos que fizemos foi o julgamento de Capitu (de Dom Casmurro, de Machado de Assis). A turma foi dividida entre o grupo dos juízes, acusação, defesa e imprensa sensacionalista. Homero ficou no grupo dos juízes. Nos processos de desenvolvimento dos argumentos, descobri que ele mandou uma colega de grupo calar a boca porque ela era uma “mulherzinha” e não deveria falar mais alto que os homens do recinto. Quase tive uma síncope de tanta raiva.
Chamei os dois separadamente para conversar, tentei ouvir a versão de cada um e ele negou que a situação houvesse acontecido daquela forma. Disse ter sido mal interpretado e jurou que pediria desculpas. De fato pediu mesmo, mas foi uma cena deplorável. Estava claro que ele estava fingindo arrependimento, mas optei por manter a postura de adulta e dar uma chance a ele. Podia ser o jeito de falar, algo assim. Até que ele piorou nas suas posturas.
Homero usou o celular de um amigo para humilhar, ofender e xingar uma de nossas estudantes. E a mim. Essa menina negra linda, a quem chamarei de Juliana, é uma das melhores alunas do colégio. Ela recebeu ameaças de surra e comentários terríveis acerca de sua cor, sua religião e sua naturalidade (a menina é baiana). Em uma das mensagens, Homero (que, óbvio, não se assumiu) disse que ela iria apanhar quando saísse da escola. Ah! Claro, e era para ela ME levar consigo, que ele ia "dar umas" na minha cara também.
Juro que quando recebi as mensagens da Juliana, já sabia que tinha sido o Homero. Quando cheguei em casa chorei muito, me senti fracassada... Não com as ameaças, que eu sabia que não se concretizariam, mas com a minha incapacidade de ensinar alguma coisa para esse menino. Não dava para ignorar, a escola procurou a delegacia e um BO foi aberto.
Quando questionado, Homero negou tudo. Seu pai foi chamado à escola, assim como foi em todas as outras situações que relatei. A sua postura? Bem, ele apoia incondicionalmente o seu rebento dizendo que “opinião não é crime” e que se a escola não tinha como provar, não deveria chamá-lo para resolver questões menores.
Homero acabou de completar 16 anos e é um fascista fã do Bolsonaro que sonha em ser político, como já me relatou. No fim, Lola, eu pergunto a você: quem é o grande errado dessa história? É o pai omisso? É a educação que recebe em casa? É a falta de exemplos? Descobri recentemente que a mãe de Homero está com câncer, quase morrendo. O lar é claramente disfuncional... De onde vem tanto ódio desses adolescentes ultraconservadores que estão surgindo AOS MONTES por aí? O painel é assustador, mesmo.
Eu deveria ter comemorado quando ele pediu transferência da escola. Mas não comemorei. A justificativa foi de que ele não tinha amigos (e não tinha mesmo... Ninguém concordava abertamente com aquilo que Homero dizia) e estava com algumas notas baixas. Me senti perdida e um tanto inútil. Já recebi inúmeros pais que me procuram para receber dicas de como lidar com seus filhos adolescentes e de como dialogar com eles. Ironia! Nunca tive filhos, como lhe falei, mas aparentemente tenho respostas que eles não têm. Os filhos deles têm um carinho e um diálogo comigo que não têm com os pais... Já Homero, que tanto precisava de uma luz, entrou e saiu da mesma forma, e eu não pude atingi-lo.
Sei que não podemos mudar o mundo e encaro a minha profissão como um dom. Claro que a minha trajetória em escola particular, com todas as condições estruturais e ganhando bem (para a realidade brasileira), não pode ser considerada um ato de altruísmo perfeito se comparada à trajetória dos colegas guerreiros que estão nas escolas de periferia onde eu mesma estudei um dia. Mas, mesmo assim... Meu “dom” não pôde mudar alguém que precisava MUITO.
Me sinto um pouco desesperançosa. Gostaria muito de ouvir a opinião de minhas/meus colegas de profissão que acompanham seu blog. Já lidaram com um caso “Homero”? Como foi? Como conseguiram superar?
Muito obrigada por ler. Desculpe qualquer erro, mas escrevo um pouco emocionada e tendo a ficar prolixa!

domingo, 25 de junho de 2017

ARGUMENTOS REAÇAS SÃO FACILMENTE DESMONTÁVEIS

Acho que desde aquele "argumento" irrefutável que explica, usando chaves e fechaduras, porque uma mulher dormir com vários caras é ruim (fechadura que abre com várias chaves = terrível), e porque um cara dormir com várias mulheres é o máximo (chave que abre várias fechaduras = maravilhoso), não aparecia um outro tão rapidamente desmontável como este das tomadas e gambiarras.
Ah sim, sabe, um apontador que aponta vários lápis é bom, mas um lápis apontado muitas vezes gasta e vira um toquinho.
Não vira não, gente! Usar nossas genitálias não gasta, não alarga, assim como não usá-las não atrofia. 
Só estou esclarecendo praqueles que acham que sexualidade humana, algo tão complexo, pode ser reduzida a comparações estapafúrdias com objetos. 
Se esses conservadores transassem mais e fiscalizassem menos a vida sexual de grupos historicamente oprimidos, talvez fossem menos ridículos. 
A propósito: um leitor enviou também esta resposta contra "argumentos" usados contra pessoas trans. 
E parece que um dos assuntos do dia é Cadê as Feministas? (todo dia é dia, e feminista não tem folga, fim de semana, feriado, nada, e o Soros só atrasa o nosso salário!) referente a... mulheres pagarem menos na balada. 
Deixo esta explicação fácil pra você chegar que essa discussão já tava cansativa e passada em 2013...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

POR QUE HOMENS ASSEDIAM MULHERES?

Mural no Egito. Aqui é muito diferente?

Um texto interessante escrito por Malaka Gharib sobre um estudo também interessante. Agradeço muito ao rapaz que o traduziu. 

Esraa Yousria Saleh andava pela rua El Hussein, uma movimentada rua no centro do Cairo, Egito. Local reconhecido por seus souvenirs e bugigangas. Saleh, então, foi surpreendida por um homem nos seus 20 anos que fez contato visual com ela. Ele se achou no direito de segui-la, cercá-la e abruptamente jogar um hálito quente no seu ouvido, dizendo: “Eu quero colocar tudo dentro de você.”
Saleh, 28, uma feminista e ativista que mora no Egito, ficou furiosa. Por que aquele homem sentiu que poderia olhá-la, segui-la, dizer aquelas palavras pra ela? 
Um estudo feito em maio pela Promundo, grupo internacional de pesquisa, e a ONU Mulher, lança uma nova luz sobre as motivações de homens, como aquele assediador do Cairo, para assediar mulheres nas ruas de áreas no Oriente Médio: Egito, Líbano, Marrocos e nos territórios Palestinos.
“Nós sabemos muito sobre as mulheres e meninas, mas relativamente pouco sobre os homens e meninos” quando é sobre assédio, diz Shereen El Feki, co-autora do relatório e autora de Sex and the Citadel: Intimate Life in a Changing Arab World (Sexo e a Cidadela: A Vida Íntima num Mundo Árabe em Transformação).
O relatório descobriu que dos 4,830 homens entrevistados, 31% no Líbano, 64% no Egito, admitiram assediar sexualmente mulheres e meninas em público, o que vai de encarar a stalkear (perseguir) a estupro.
Claro que o assédio em público é um fenômeno masculino mundial. Estudos já mostraram que a vasta maioria das mulheres em cidades do Brasil, Índia, Tailândia, e Reino Unido estão sujeitas à violência em público. Os Estados Unidos não estão imunes -- 65% das 2 mil mulheres entrevistadas disseram ter sofrido assédio nas ruas, de acordo com um estudo de 2014 conduzido pela GfK For Stop Street Harassment, grupo ativista que luta para por fim a comportamento. 
Mas há particularidades sobre o assédio que ocorre no Oriente Médio, segundo a Promundo. Na Palestina, Marrocos e Egito, jovens com ensino médio são mais propensos a cometer esses abusos do que seus pares mais velhos e com menos educação formal.
Os pesquisadores ficaram surpresos com essa descoberta. 
Geralmente, homens que terminaram o ensino médio ou a faculdade são mais esclarecidos nas atitudes respeitosas com as mulheres do que aqueles com menos ou nenhuma educação formal, afirma Barker, que tem estudado a masculinidade e igualdade de gêneros em mais de 20 países. Barker e El Feki teorizam que os fatores que contribuem para esse comportamento na região sejam as altas taxas de desemprego, instabilidade política e pressão social para que não falhem no sustento de suas famílias. Metade dos homens relataram que se sentem estressados, deprimidos e envergonhados de encararem seus familiares. Talvez assediar mulheres seja uma maneira de exercer seu poder, sugere Barker.
Esses jovens “têm aspirações elevadas para si, mas não são capazes de alcançá-las”, dizem. “Então eles assediam mulheres para colocá-las no seu lugar. Eles acham que o mundo deve algo a eles”. 
Num lugar como o Egito rural, a situação é fácil de entender, diz El Feki. “Isso traduz o tédio de ser um homem jovem lá”, diz ela. 
Esses jovens não conseguem trabalho. Não podem se dar ao luxo de casar. Estão condenados a viver com seus pais. Não há nada para se fazer. “Eles estão num estado suspenso da adolescência”, afirma ela.
O assédio é uma maneira dos jovens “se divertirem”, opina El Feki. Quando os homens entrevistados nessa pesquisa foram perguntados por que assediam mulheres em público, a vasta maioria, 90% em alguns lugares, disse que faz por diversão e excitação.
Obviamente, não é como as mulheres enxergam isso. “Não é divertido de jeito nenhum”, diz Saleh. “É um pesadelo!”
Holly Kearl, diretora executiva do Stop Street Harassment e autora do Stop Global Street Harassment: Growing Activism Around The World (Pare com o Assédio na Rua: O Ativismo Crescente no Mundo) diz que não fica surpresa. “Eu já vi essa ‘lógica’ sendo apontada em outros estudos: ‘Estou entediado. Estou me integrando com meus amigos homens. Só estamos nos divertindo’”, diz Kearl. “Homens não pensam sobre como as mulheres se sentem”.
Os pesquisadores no Promundo suspeitam que as motivações levantadas no estudo do Oriente Médio não são exclusivas da região. “Sabemos que o assédio a mulheres nas ruas é um problema em todo o mundo e que há dinâmicas semelhantes em jogo”, diz Brian Heilman, um membro do Promundo que ajudou a escrever o relatório. “Nós conseguimos ter um horizonte mais rico de detalhes sobre o que é assédio nessa região por meio desse levantamento”. Esse relatório é o primeiro do grupo feito para estudar o assédio na rua pela perspectiva dos homens.
Mulheres podem sofrer uma larga escala de efeitos psicológicos ocasionados pelo assédio nas ruas, diz Kearl. Estudos comprovam que, para sobreviventes de violência sexual, o assédio nas ruas pode ser traumático e doloroso. Isso faz com que se sintam inseguras, e como resultado, as leva a restringir seus deslocamentos.
Saleh, por exemplo, parou de usar o metrô no centro do Cairo. Ela passou a usar o Uber para evitar outro incidente como o ocorrido na rua El Hussein. “Mas às vezes eu fico sem dinheiro e então sou novamente forçada a usar o transporte público”, diz ela.
Grupos no Oriente Médio, como o HarassMap no Egito e o HarassTracker no Líbano, usam dados cruzados de GPS e testemunho de incidentes para manter as mulheres alertas e minimamente seguras nas ruas. Em 2010, a ONU lançou a campanha Safe Cities and Safe Public Spaces (Cidades Seguras e Espaços Públicos Seguros) mundialmente para evitar o assédio nas ruas em mais de 20 cidades no mundo, por meio de ações educativas e intervenções.
“Infelizmente, não sabemos o que funciona a longo prazo”, diz Kearl. “É difícil ver quais ações estão funcionando numa escala maior.” Ela sugere que o problema deve ser tratado nas escolas, com ações contra o assédio, envolvendo todos os gêneros. 
Talvez assim meninos e homens pudessem entender que sua “diversão” tem consequências: “É como se houvesse uma mão entrando no meu estômago e agarrando meu intestino", diz Saleh. "É como querer vomitar, mas não poder".


Mulheres em Cairo protestam contra
assédio sexual nas ruas: "Sou como a
sua irmã" e "As ruas e a praça são dos
homens e das mulheres", dizem
cartazes
Nota da Lola: Um artigo do Slate sobre o mesmo estudo aponta outros dados, como, por exemplo, que mulheres vestidas "provocadamente" merecem ser assediadas. Infelizmente, muitas mulheres também acreditam nisso. Mais da metade das mulheres entrevistadas no Marrocos disseram que mulheres que saem à noite "estão pedindo para serem assediadas". Além disso, muitos dos homens entrevistados nesses locais creem que as mulheres gostam de serem assediadas. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ROGER ABDELMASSIH VAI CUMPRIR PENA EM SUA MANSÃO

A notícia que revoltou a muita gente ontem: o ex-médico Roger Abdelmassih, 73 anos, vai poder cumprir em casa sua pena de 181 anos de prisão por 48 estupros de 37 pacientes entre 1995 e 2008.
Roger conseguiu indulto humanitário por estar doente. Desde 18 de maio estava internado em hospital em Taubaté com broncopneumonia. Graças ao indulto, vai poder passar o resto da sua pena na sua mansão, cercado por serviçais, usando tornozeleira eletrônica. Roger ficou pouco tempo na cadeia, nem três anos. O Ministério Público foi contra o indulto. 
Roger foi pioneiro da fertilização in vitro no Brasil e era reconhecido nacionalmente. Em 2009 começaram a aparecer as denúncias de suas pacientes, que alegavam ter sido estupradas por ele enquanto estavam sedadas. O número de denúncias passou de 60. 
Um juiz de SP decretou a prisão de Roger em agosto de 2009 e ele ficou quatro meses preso, até que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes, lhe deu um habeas corpus revogando a prisão preventiva.  
Roger foi acusado de 56 estupros e condenado a 278 anos de reclusão em 2010. Mas o Conselho Regional de Medicina de SP (Cremesp) só cassou seu registro profissional em 2011. 
Depois da condenação, Gilmar Mendes concedeu a Roger um outro habeas corpus, para que ele pudesse responder à sentença em liberdade. Ou seja, mesmo depois de condenado, Roger não foi preso. Assim, ele aproveitou para fugir do Brasil. 
Mansão de Roger no Paraguai
Passou três anos fora do país (pensava-se que ele estava no Líbano, país com o qual o Brasil não tem tratado de extradição, mas estava no Paraguai) e foi capturado pela Polícia Federal em Assunção em agosto de 2014. 
Havia se casado com uma ex-procuradora brasileira, com quem teve dois filhos gêmeos. Roger vivia uma vida luxuosa, passando-se por empresário. 
Cédula de identidade falsa
No mesmo ano de sua captura, sua pena foi reduzida para 181 anos (de qualquer jeito, ninguém pode ficar preso mais que 30).
O exemplo de impunidade de Roger assusta. O que aconteceu foi algo que só costuma acontecer com os ricos. 
Compare a situação dele com a da mulher que está presa por roubar ovos de Páscoa e bandejas de frango para os filhos num supermercado em Matão, SP, em 2015 (ela foi presa pelo seu furto no valor de R$ 1.200 quando estava grávida; condenada a 3 anos de prisão; em maio último, o STJ negou o habeas corpus para que pudesse cumprir a pena em casa).  
Ou com a situação de Rafael Braga, morador de rua, negro, preso por portar uma garrafa do desinfetante Pinho Sol nas manifestações de junho de 2013, e condenado a 11 anos de prisão. 
Nossa Justiça definitivamente não é cega. Ela sabe distinguir muito bem a cor e a classe social de cada acusado.