segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

MELHOR NÃO EXISTIR?

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Esse é o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas, um dos clássicos de Machado de Assis. 
Tem quem leve bem a sério isso de não ter filhos para realmente dar um fim ao "legado da nossa miséria" como humanos. Existe um movimento antinatalista, que prega a extinção da humanidade. Eles não querem matar ninguém, apenas sugerem que é melhor parar de se reproduzir e "deixar morrer" a nossa espécie.
É o que sugere o filósofo sul-africano David Benatar, autor de Better Never to Have Been (Melhor Nunca Ter Existido), assim como Sarah Perry em Every Cradle is a Grave (Todo Berço é um Túmulo) e outros. Benatar, que se nega a responder perguntas pessoais como "Você tem filhos?", acredita que viver é sofrimento (leia a entrevista com ele aqui).
Hmm... Estou me tornando vítima
da sociedade matriarcal
Devo dizer que, ao ler a entrevista, o nome não me pareceu estranho. Aí fui ver que Benatar é muito querido por mascus. Ele é autor também de O Segundo Sexismo: Discriminação contra Homens e Meninos, o que o faz ser chamado para conferências de MRAs (Men's Rights Activists, ou Homens pelos Direitos dos Homens, se é que esses grupos misóginos existam ainda). 
Benatar crê que não somos felizes (tipo: nós humanos, não apenas os mascus, cuja infelicidade é bastante óbvia). E defende que, em vez de perguntar "A vida vale a pena?" , deve-se mudar as indagações para "Vale a pena continuar vivendo?" (pelo jeito sim, porque, pra ele, o suicídio e a morte também são sofridos) e "Vale a pena começar a viver?" Aí a resposta seria um incisivo "não". 
Antes que alguém me chame de hipócrita por não concordar com os antinatalistas, eu e o maridão não tivemos filhos não porque gostaríamos de acabar com a espécie (não temos esse poder), mas por uma decisão pessoal mesmo. Nunca fez parte do nosso projeto de vida sermos pais. Nunca tivemos esse desejo, e não nos arrependemos. Apenas isso (incrível como tem tanta gente que não consegue captar essa explicação. Há dezenas de "teorias da conspiração" dos meus inimiguinhos na internet "falando a verdade" sobre por que não tenho filhos. "Não querer" não entra na cabeça deles). 
- Um dia tds iremos morrer, Snoopy.
- Verdade, mas em todos os outros
dias, não iremos.
Eu adoro viver. Queria viver 900 anos, como aqueles personagens bíblicos, ou como os vampiros. Eu não me incomodaria nem um pouco em ser imortal e repetir minha existência monótona por toda a eternidade. Como isso não é possível, queria que o dia tivesse 48 horas. Lógico que levo uma vida privilegiada, e lógico que a vida de grande parte dos seres humanos (e dos outros animais a quem nós humanos infligimos tanta dor) não é boa, já que há bilhões de pessoas que vivem na miséria, em países em guerra, na escravidão, no desespero. 
E lógico que sinto que fracassamos, ou melhor, estamos fracassando (por que o passado? Acabou? Fica, vai ter bolo!) como espécie em inúmeros quesitos. Mas eu nem falo "Vem, meteoro!" ao ler uma notícia horrorosa que comprova o nosso fracasso, tamanho é o meu otimismo incorrigível. Creio que, em vez de jogar a toalha e nos conformarmos com o "Vem-Meteorismo" (by PattRodrigues), devemos lutar pra fazer um mundo melhor.
Isso de "melhor não nascer para não sofrer" me lembra muito essas pessoas (conheço várias) que juram que nunca mais terão um bichinho de estimação porque, quando seu gato ou cachorro morreram, elas sofreram demais. É verdade, é muito doído perder nossos animais queridos, mas não é ainda mais doído privar-se do prazer da companhia deles? 
Talvez nós como humanos possamos melhorar pra deixar às criaturas um legado maior que o da nossa miséria.

domingo, 21 de janeiro de 2018

MAIS UMA VEZ, MULHERES MARCHAM NOS EUA CONTRA TRUMP

Acabamos de começar, diz cartaz de manifestante do #WomensMarch2018

Ontem centenas de milhares de mulheres nos EUA saíram às ruas para protestar.
"Obrigada, Trump, você me tornou uma ativista", diz criança
Houve marcha de mulheres (com a participação de muitos homens também) em cerca de 250 cidades americanas. Em Los Angeles e outras lugares da Califórnia as manifestantes gritavam "Si se puede!". Em Nova York foram 200 mil pessoas, na contagem oficial. Até as mulheres do Alasca foram protestar -- e no inverno! 
Lugar de mulher é na resistência
Houve inúmeros cartazes dizendo "Trump, você é o buraco de m*rda", aludindo ao presidente ter chamado países da América Central e África de "shitholes".
Paralise (alusão ao shutdown do governo) este buraco de m*rda
O Women's March do ano passado foi na posse de Trump, quando o pessoal ainda estava atordoado com uma "vitória" (quase 3 milhões de votos a menos) inesperada do predador reaça. Como disse uma das participantes, de 61 anos, "Ano passado eu estava furiosa e cheia de emoção. Agora eu vejo que esses protestos são apenas o começo". 
Se você não está zangada, você não está prestando atenção
As marchas são totalmente feministas, com pautas que interessam às mulheres, e foco para que mais mulheres sejam eleitas para o Congresso. Este ano o movimento #MeToo se fez presente. Mas o principal alvo é mesmo Trump. 
Favor observar a ausência de nazistas nas nossas marchas
Pesquisas apontam que apenas 39% dos entrevistados aprovam seu governo. Pode parecer muito se comparadas às taxas de desaprovação de Fora Temer, mas é o número mais baixo para um presidente dos EUA depois de um ano de mandato. 
Isso só tende a piorar, agora que vários serviços públicos serão paralisados, depois que o Senado não aprovou o novo orçamento do Trumposo. 
Meninas com sonhos tornam-se mulheres de visão
Selecionei algumas das fotos dos melhores cartazes que vi. 
Construa um muro e minha geração vai derrubá-lo
Meus preferidos são muitas vezes aqueles levados por crianças, porque isso me dá uma grande esperança no futuro. 
Quero ser presidenta
Enquanto isso, aqui no Brasil, marqueteiros de Trump recusaram assessorar a campanha de Bolsonaro. Eles avaliaram o candidato da extrema direita e concluíram que sua imagem era muito ruim. Isso vindo de gente que assessorou um sujeito asqueroso que nunca havia exercido um cargo político e que é acusado de corrupção e vários assédios sexuais
Putz, e Bolso havia até batido continência pra bandeira americana, como o grande patriota que é!
Marche como uma garota
 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

DESAFIOS PARA A ESQUERDA EM 2018: DERROTAR A ILEGITIMIDADE DE TEMER E A PROPAGAÇÃO DO ÓDIO DE BOLSONARO

João Paulo Jales dos Santos, graduando em Ciências Sociais, escreveu este ótimo texto para o blog.  

Foram duas denúncias contra Michel Temer em um curto espaço de tempo, quase três meses. A primeira, votada no início de agosto, acusava Temer de corrupção passiva e o colocava como primeiro presidente a ser denunciado por crime comum enquanto cumpre mandato. A segunda denúncia, votada no final de outubro, tinha como acusação os crimes de organização criminosa e obstrução de justiça. O mesmo congresso repleto de vigaristas da ética que golpeou Dilma Rousseff salvou Michel Temer. 
E essa é uma diferença crucial. Dilma foi deposta pelo Congresso mais imoral das últimas décadas da história moderna do país, já Temer foi salvo pelos gatunos que habitam o legislativo nacional. Se havia alguma dúvida sobre a permanência de Temer até o final de 2018, ela não mais existe. A aliança que o aboletou na Presidência, sem passar pelo crivo das urnas, juntando o alto empresariado, o oligopólio dos detentores da comunicação, uma direita raivosa por perder em 2014 e uma classe média ressentida com o avanço dos pobres e das minorias, manterá Temer incólume no poder central porque ele governa para o mercado, com aquela fúria do capitalismo radical, atendendo o interesse daqueles que o catapultaram à presidência. 
A esquerda tem um tremendo desafio para 2018: vencer uma eleição num cenário que seu capital político está fragilizado. O desafio é maior do que quando Lula foi eleito em 2002 e Dilma reeleita em 2014. Mas o desafio não é só vencer a presidência, é obter ganhos de assentos no legislativo nacional e nas assembleias estaduais, onde está o foco e a grande pressão de grupos ultrarreacionários para fazer avançar propostas conservadoras. 
A caminhada do campo progressista para 2018 terá início com o julgamento de Lula no TRF4 na quarta que vem (24 de janeiro). O resultado que sair do Tribunal desenhará a estratégia político-eleitoral que o PT tomará para o pleito presidencial. Lula e PT são as maiores forças da esquerda do país. Compreensível então que o debate sobre que direção tomará a esquerda gire em torno do ex-presidente e da legenda. No entanto, outros nomes da esquerda já apresentam pré-candidatura, preocupando o lulopetismo. Mas o que de fato significam os nomes de Manuela d’Ávila (PCdoB), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos na disputa de 2018?
Ciro Gomes é pré-candidato, de certa forma, desde que chegou em 2015 no PDT, mas sua postulação ganhou impulso com a atual situação jurídica de Lula, o mesmo que aconteceu com Manuela. Ambos são postulações estratégicas. Atendem do ponto de partida dois propósitos, angariar o apoio de Lula caso sua candidatura venha a ser inviabilizada e pressionar para comporem chapa com ele caso tenha condições jurídicas para tanto. 
Que não se dê muita atenção para falas que venham desmentir tais alternativas, porque tanto para Manuela quanto para Ciro as intenções são essas. Mudanças na estratégia de ambos devem ocorrer juntamente com o desenrolar do julgamento no TRF4. Reitero: toda a estratégia para o campo da esquerda se restringe ao que acontecer com a situação jurídica de Lula em conseguir ou não ser candidato. 
E Boulos? Ao contrário de Manuela e Ciro, que a depender do cenário podem vir a abandonar suas postulações, o coordenador do MTST, caso venha a sair candidato pelo PSOL, não depende de Lula estar ou não concorrendo. O PSOL, ao contrário do PCdoB e PDT, desde 2006, quando disputou a primeira eleição presidencial após a fundação partidária em 2004, apresenta candidaturas à presidência. 
O PCdoB desde 1989 coliga-se com o PT, e PDT faz o mesmo desde 2010. Portanto, o cálculo de ter Boulos ou não na disputa não passa necessariamente em Lula ser candidato, e sim da disposição de Boulos em sair candidato. Mesmo que Boulos recuse a proposta, o PSOL tende ter candidatura própria. Boulos na corrida presidencial impulsiona o PSOL a levar a cabo a forte agenda progressista que a agremiação promoverá no debate público. Uma esquerda unida em torno de uma única candidatura é uma possibilidade para o segundo turno, como ocorreu em 2016 no Rio Janeiro com Marcelo Freixo. A união já no primeiro turno têm chances remotas.  
Michel Temer ter uma candidatura para defender seu impopularíssimo governo significa fracasso certo nas urnas. Quem acredita no contrário são os arautos do mercado e a elite, que vive afastada da realidade do país. Certamente a arrumação será tensa, mas não é irrelevante a união da facção de Temer e o tucanato marchando juntos, só que sem Temer como figura de proa nos palanques Brasil afora. 
Já Bolsonaro, até agora, bateu cabeça para encontrar um partido para se lançar candidato, num ato que denota confusão e incoerência -- tudo aquilo que seus ignorantes asseclas acusam nos outros e que só confirma o engodo que é Bolsonaro. É ele a repugnante surpresa para 2018. Não que seja novo na política, muito pelo contrário, desde o fim da década de 80 o deputado federal exerce cargo eletivo. A surpresa é chegar onde chegou, igualmente como Temer. 
Bolsonaro não tem conteúdo, não possui nenhum projeto importante proposto e aprovado nos sete mandatos consecutivos na Câmara Federal, e à medida que sua candidatura avance, mais podres serão desvendados sobre sua vida pública. O propagador maior de ódio do país pegará carona na onda anti-PT, como fez João Doria. Bolsonaro, Temer e Doria são três figuras incompetentes, que estão onde estão somente por causa de um vazio sentimento de repulsa ao PT. 
Para a esquerda fica a reorganização de agora para as próximas décadas. 2018 é a oportunidade de planejar o futuro do campo progressista do país. Uma esquerda ativa que desmonte as falsas consciências, como já dizia Marx, das reformas trabalhista, previdenciária e da educação, e a PEC do teto dos gastos, que já não mais consegue mascarar a farsa que sempre foi. A vibrante agenda do combate à desigualdade para a promoção de se viver numa sociedade solidária passa pela organicidade do movimento de esquerda. Só com a força das bases e dos movimentos sociais avançarão os progressistas do Brasil. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O CASO AZIZ ANSARI, NOSSOS "NÃOS" E NOSSO EMPODERAMENTO

Fiquei decepcionada ao ver que um artista que eu admirava, e que se diz feminista, pisou na bola bonito. Estou falando do ator e humorista Aziz Ansari, da premiada série Master of None. Mesmo pra quem nunca ouviu falar nele, o caso que o envolve traz questões interessantes. Tanto que várias mulheres pediram pra eu falar nisso.
Foto que Grace tirou dos
dois nos Emmys
Bom, é o seguinte. Uma jovem fotógrafa, Grace (não seu nome real), conheceu Aziz numa festa de comemoração dos Emmy, no ano passado. Eles paqueraram um pouquinho, trocaram telefones, ele ligou pra ela, em Nova York, e eles marcaram um encontro no dia 25 de setembro. Foram a um bar perto do apartamento dele, em Manhattan, conversaram bastante, e, no final do jantar, Aziz parecia ansioso pra ir embora. Eles caminharam até o apartamento, ela subiu, e, pra ela, as coisas andaram rápidas demais. Eles se beijaram, se tocaram, fizeram sexo oral. Ela não estava confortável e, segundo ela, deu vários sinais que não estava interessada -- tirou a mão do pênis dele umas cinco ou sete vezes (ele a colocava de volta), parou de beijar, se esquivava.
Quando ele perguntou "Onde você quer que eu te f*da?", ela respondeu "Na próxima vez" e foi ao banheiro. Ao voltar, Aziz perguntou se ela estava bem. Ela disse "Não quero me sentir forçada porque aí vou te odiar, e prefiro não te odiar". Ele foi gentil e respondeu: "Ah, claro, só é divertido se for divertido pros dois". O problema é que suas ações não acompanharam suas palavras. Ele se sentou, apontou pro seu pênis, e fez um gesto de que queria sexo oral. E ela fez. Ele insistiu em transar, e ela disse: "Não acho que estou pronta, realmente não acho que vou transar". Então ele sugeriu assistirem um episódio de Seinfeld. Nesse momento, parando pra pensar, ela se sentiu violada.
Mensagens de texto
trocadas
Ele começou a beijá-la e apalpá-la de novo, e ela disse "Vocês homens são a mesma m*rda". Ela se levantou, disse que iria chamar um Uber, e foi embora. Chorou no elevador e dentro do carro, durante todo o trajeto até sua casa.
Na noite seguinte, Aziz mandou uma mensagem de texto pra Grace: "Foi divertido te conhecer ontem à noite". Ela respondeu: "Pode ter sido divertido pra você, mas não foi pra mim. Você ignorou sinais não-verbais claros, você continuou avançando. Quero ter certeza que você saiba para que talvez a próxima garota não tenha que chorar no caminho de casa".
Ele escreveu: "Fico muito triste em ouvir isso. Claramente, eu interpretei de forma errada as coisas no momento e peço muitas desculpas".
Esse foi o último contato que ela teve com ele. E aí, no Globo de Ouro, ela o viu ganhar o prêmio de melhor ator em comédia ou musical por sua série, e ele estava usando o pin "Time's Up", algo como "Chegou a hora", que várixs artistas usaram na cerimônia (junto à cor preta nas roupas) para se manifestar contra os inúmeros casos de assédio em Hollywood.
E Grace, vendo isso na TV, decidiu falar com suas amigas e contar a história. Ela disse ao site feminista Babe, que publicou seu relato: "Creio que Aziz tirou vantagem de mim. Não fui ouvida, fui ignorada. Foi de longe a pior experiência que já tive com um homem".
Depois que a história veio à tona, Aziz deu uma declaração por escrito: "Em setembro do ano passado, conheci uma mulher numa festa. Trocamos telefones e mensagens e saímos. Fomos jantar, e depois acabamos em atividade sexual, que por todas as indicações foi completamente consensual. No dia seguinte, recebi uma mensagem dela dizendo que, depois de refletir, ela se sentiu desconfortável. Era verdade que tudo pareceu okay pra mim, então quando ouvi que não foi o caso pra ela, fiquei surpreso e preocupado. Levei suas palavras em consideração e respondi em privado depois de processar o que ela havia dito. Continuo apoiando o movimento que está acontecendo na nossa cultura. É necessário e já passou da hora". 
Todo o caso foi parar nos Trending Topics do Twitter no sábado. As pessoas ficaram divididas. Grande parte dos homens viram o caso apenas como um encontro que não deu certo. Muitas mulheres alegaram que o que foi descrito por Grace é típico -- caras tentarem "forçar a barra" quando elas não estão a fim -- e que pode ser visto como assédio sexual ou, no mínimo, comportamento sexual inapropriado. Algumas disseram que denúncias como essas tiram a seriedade de movimentos como o #MeToo. 
Na segunda, o El País publicou um ótimo artigo citando vários pontos de vista. Por exemplo, Emily Reynolds escreveu no The Guardian que o caso é difícil porque força os homens a reexaminarem seu comportamento. Segundo ela, um estuprador é tido como um monstro, mas atitudes como a de Aziz são muito mais comuns. 
Rachel Thompson, no Mashable, lembra que "dizer 'não' é mais complexo do que você imagina" (já que muitas vezes um "não" não é aceito e é respondido com violência), e critica quem aponta o que Grace deveria ter feito -- "ela deveria ter ido embora".  
Sobre isso, Grace justificou para o site Babe: "Eu não fui embora porque eu estava chocada. Não era isso que eu esperava. Tinha visto alguns dos episódios da série de Aziz e lido trechos do seu livro [Modern Romance, um bestseller que trata de sexo e namoro nos tempos da internet] e eu não esperava uma noite ruim, muito menos uma noite violadora e dolorosa".
Como mostra Thompson, a sociedade vive nos lembrando que "não" não é necessariamente não. Em colégios de elite nos EUA, alunos cantam hinos como "Não quer dizer sim! Sim quer dizer anal!". O bilionário Warren Buffet declarou que "se uma dama diz não, ela quer dizer talvez". E quantas piadas você já ouviu sobre o "não" ser na verdade um "sim! sim! sim!"?
Bari Weiss publicou no New York Times o contraponto mais virulento: "Aziz Ansari é culpado... de não saber ler mentes". Ela aponta:
"Aziz Ansari pareceu ser um homem agressivo, egoísta e desagradável naquela noite. Não é deprimente que homens (especialmente aqueles que se apresentam publicamente como feministas) geralmente se comportem dessa maneira privadamente? Não deveríamos tentar mudar essa cultura sexual fraturada? E não dá raiva que as mulheres sejam educadas para serem dóceis e acomodadas e para colocar os desejos dos homens antes dos delas? Sim. Sim. Sim. Mas a solução para esses problemas não começa com as mulheres perseguindo com tochas homens que não tenham sido capazes de entender seus sinais não verbais; a solução começa em sermos mais diretas. Dizer: 'Isso é o que me excita'. Dizer: 'Eu não quero fazer isso'. E, sim, às vezes dizer: 'Cai fora'".
Então... É possível concordar tanto com Reynolds e Thompson quanto com Weiss? São pontos de vista realmente tão divergentes assim?
Aziz sendo feminista
Sem dúvida é difícil para as mulheres falarem "não" e para os homens aceitarem que "não" é "não" mesmo. Nós mulheres somos ensinadas (talvez o termo doutrinadas seja mais apropriado) desde criancinhas a agradar os homens. Aprendemos que a opinião deles vale mais. Que seus desejos são mais importantes que os nossos. Que sem eles não somos ninguém. E, obviamente, os meninos aprendem a mesma coisa. Aprendem que são os reis do universo e mais -- que, como a opinião de uma mulher não é relevante, que como ela tem que "vender caro seu passe", seu "não" não é realmente um "não". E que se eles não insistirem, não vão conseguir sexo. E se não conseguirem sexo, não são homens o suficiente. 
(São todos ensinamentos tenebrosos, não? Por isso que educar crianças sobre questões de gênero é fundamental: pra debater e consequentemente virar de ponta-cabeça todos esses dogmas ridículos).
Porém, os tempos estão mudando, e nós mulheres temos mais força e poder hoje do que jamais tivemos. Precisamos ser fortes. Assim como não precisamos mais esperar os homens iniciarem a paquera, também podemos ser assertivas, nos levantarmos e ir embora. Quero dizer, não sempre, não quando há violência ou ameaça de violência, mas, no caso de Aziz, se Grace tivesse dito "Seu beijo é uma droga, eu tô indo embora, tchau", ele provavelmente não teria impedido sua saída. 
Lógico que é fácil eu falar. Eu tenho 50 anos, sou casada e monogâmica há 27. Então faz quase três décadas que eu não entro nessas situações de risco que são sair com um homem (incrível como um ato tão simples possa ser enquadrado como situação de risco!). Sinceramente, de vez em quando eu penso como seria minha vida romântica e sexual se eu não tivesse o Silvinho. Se algo acontecesse, se ele morresse ou a gente se separasse, o que eu faria? Como recomeçaria? Pra onde iria pra "conhecer homem" (já que eu sou hétero)? Conheceria pela internet? E aí, eu não ficaria exposta? Imagina se um cara filmasse (sem eu saber) a gente transando e jogasse na internet? 
Aí eu sempre concluo que, se algo acontecesse com o Silvinho, eu me aposentaria da minha vida romântica e sexual. É triste falar isso, mas acho que não teria estômago pra começar tudo de novo. 
Antes de conhecer o maridão (que foi meu primeiro e único "relacionamento sério"), eu transei com vários caras. Felizmente, nunca fui estuprada (consegui escapar de umas três situações de estupro, como já narrei aqui e aqui). Mas tive muito "bad sex" (sexo ruim). 
Lógico que me arrependi de ter transado com alguns (quem nunca?), assim como me arrependi de não ter transado com um ou outro. Já fiz sexo sem vontade, e nunca vi isso como estupro. A gente faz bastante coisa sem vontade na vida, e nem por isso é violência. "Sem vontade" não é o mesmo que "sem consentir". Você consente em transar, apesar de não estar muito a fim. Convenhamos: isso não é incomum nos casamentos. Muitas vezes os maridos transam sem estar com vontade também. 
Eu penso que, na minha juventude, me livrei de algumas situações ruins porque eu já era forte e decidida e feminista. Ao mesmo tempo, lembro que pouco mais de dez anos atrás, quando eu já era bem madura, um senhor se sentou ao meu lado no ônibus de Floripa a Joinville e, depois de um papo estranho, segurou a minha mão e beliscou a minha perna. E eu lembro que inventei uma desculpa pra mudar de lugar. Tipo: euzinha, apesar de forte e decidida e feminista, fui toda educada com um predador asqueroso. Sei que hoje em dia eu agiria de outra forma. 
No caso de Grace, pra mim parece bastante óbvio que, se fosse com um outro cara na mesma situação, ela teria dito não e ido embora rapidinho. Mas era o Aziz. Não deve ser fácil falar não pra uma celebridade. E, acima de tudo, uma celebridade que tinha uma imagem de homem inteligente, sensível, feminista.